A expectativa do governo brasileiro é de que a gestão do presidente Donald Trump anuncie nos próximos dias a decisão sobre a possível adoção de novas tarifas contra produtos exportados pelo Brasil. A medida está sendo analisada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), que investiga supostas práticas comerciais consideradas desleais. Mesmo com as conversas em andamento, integrantes do Palácio do Planalto avaliam que as chances de evitar a taxação são reduzidas.
Na sexta-feira (10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reuniu-se com os ministros Mauro Vieira, das Relações Exteriores, e Márcio Elias Rosa, do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Os dois comandam as tratativas com representantes norte-americanos. Durante o encontro, foram discutidos os possíveis desdobramentos da decisão, prevista para ser divulgada na quarta-feira (15).
Nos bastidores, o Planalto trabalha principalmente com a expectativa de que as tarifas sejam confirmadas. A principal dúvida, segundo auxiliares do governo, está relacionada ao percentual que será aplicado e aos setores que poderão ser atingidos pela medida. A investigação conduzida pelo USTR, aberta em junho, recomendou a imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. O procedimento tem como base a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 e analisa temas como o uso do Pix, desmatamento ilegal e normas ligadas à proteção da propriedade intelectual.
A percepção do governo brasileiro é de que os argumentos técnicos apresentados durante as negociações dificilmente serão suficientes para modificar a posição norte-americana. Com isso, a avaliação é de que ainda existe uma grande distância entre os dois países para que um acordo seja alcançado. Essa leitura também foi reforçada pelo representante do USTR, Jamieson Greer. Em entrevista concedida à Fox Business na última semana, ele afirmou que ainda há divergências significativas entre as partes e indicou que a decisão definitiva será anunciada em breve. “Esta semana tivemos nossa última audiência, e eu estou em contato com os brasileiros, estamos tentando negociar, mas eu acho que há muita distância entre nós, então você verá a decisão final sobre o Brasil muito em breve”, disse Greer.
Antes do anúncio oficial, previsto para quarta-feira (15), Greer e integrantes do governo brasileiro devem realizar uma nova reunião para tentar avançar nas negociações.
Na tentativa de evitar o tarifaço, o governo brasileiro apresentou recentemente à equipe econômica de Donald Trump um documento com propostas de compensação. O chamado "mapa do caminho" reúne alternativas para responder aos questionamentos feitos pelos Estados Unidos durante a investigação.
Até então, o governo norte-americano não havia informado quais pontos poderiam ser negociados para uma eventual suspensão das tarifas. Diante desse cenário, o Brasil elaborou um plano que prevê o fortalecimento de mecanismos de fiscalização nas áreas questionadas pelo USTR, incluindo comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.
A proposta também reforça ações já adotadas pelo governo brasileiro com o objetivo de demonstrar que os temas investigados não provocam prejuízos ao comércio dos Estados Unidos. Além disso, o documento sinaliza disposição para ampliar medidas em cada uma das seis áreas analisadas. O Pix, entretanto, ficou de fora das negociações. Integrantes do governo consideram o sistema de pagamentos um tema inegociável e, por isso, ele não integra o pacote de propostas encaminhado aos norte-americanos.
Mesmo com a apresentação desse conjunto de medidas, a equipe brasileira responsável pelas negociações continua avaliando que existe pouca disposição, por parte dos Estados Unidos, para rever a aplicação das tarifas. Outro cenário considerado pelo Palácio do Planalto, embora visto como pouco provável, é o adiamento da entrada em vigor da taxação. Nos bastidores, essa hipótese é interpretada como um possível gesto em favor do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como pré-candidato à Presidência da República.
Segundo integrantes do governo, essa possibilidade não pode ser totalmente descartada devido ao comportamento considerado imprevisível da administração Trump e à atuação de setores ideológicos do Departamento de Estado que tentariam influenciar o cenário político brasileiro.
Na semana passada, Flávio Bolsonaro esteve em Washington para acompanhar a audiência sobre o tarifaço. Durante a discussão, o senador afirmou que este seria o "pior momento possível" para a adoção da medida e argumentou que a cobrança acabaria favorecendo eleitoralmente o presidente Lula. Antes disso, ele já havia defendido que a aplicação das tarifas fosse adiada pelo menos até a realização das eleições.
Leandro Soares
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