Um Princípio Para Chamar de Nosso

Uma questão que sempre me motivou a estudar filosofia foi a tentativa de encontrar leis ou princípios que fossem aplicados a todos de forma indistinta. Eu achava que, a exemplo das leis da física, as questões não-físicas também deveriam ter suas leis, seus princípios. Assim tudo começou.

Com o passar do tempo e o aprofundamento dos estudos, verifiquei que até o que eu reputava como válido, a invariabilidade dos princípios físicos, não o era. Quem quer que se dedique a estudar, ou pelo menos ler, sobre a física quântica, perceberá, logo de cara, que os princípios que tão metodicamente Isaac Newton dedicou-se a estudar, não são tão universais quanto pareciam ser. Cito como exemplo, a outrora orgulhosa e toda poderosa lei da gravidade. Pesquisas recentes demonstraram que em alguns pontos do globo terrestre, tais como os triângulos das bermudas e do dragão, nas Bermudas e Japão, respectivamente, a gravidade não atua de forma linear, existindo um eixo de forças que os cientistas compararam aos buracos negros e brancos.

Já que estamos falando em Newton, devemos rememorar que o grande físico acreditava que a função da ciência era descobrir leis universais e enunciá-las de forma racional e precisa. Pois bem, eu acho que a metafísica também merece suas leis, e o fato de não ter podido encontrá-las ainda, não significa que não existam.

Repasso para os leitores, de forma resumida, o que até agora consegui e conclui sobre os princípios metafísicos. Importa salientar que o tema é tão vasto e instigante quanto obscuro e de difícil acesso.

Muitos foram os filósofos que se preocuparam com esse tema. A história nos mostra homens precursores de seu tempo, como Roger Bacon, Santo Alberto Magno, Francis Bacon, Isaac Newton, Paracelso e Immanuel Kant.

Já que falamos de Kant, uma das regras mais interessantes que identifiquei foi uma de suas máximas, que instituiu o que ficou conhecido como imperativo categórico, assim enunciado: "Age de tal modo que a máxima da tua ação possa tornar-se princípio de uma legislação universal". É claro que apesar do brilhantismo do axioma de Kant, essa é uma postura a ser adotada como regra moral do homem em relação à vida e à natureza. Entretanto o que eu buscava era as leis da própria vida e natureza em relação a tudo, inclusive ao homem.

A filosofia hermética do antigo Egito e da Grécia, nos livros O Caibalion e Corpus Hermeticum, que recomendo a leitura, enumeram 7 princípios universais, quais sejam, os princípios do 1) Mentalismo; 2) Correspondência; 3) Vibração; 4) Polaridade; 5) Ritmo; 6) Causa e Efeito, e 7) Gênero. Veremos nesta coluna somente o princípio da causa e efeito, dada a amplitude do tema.

Isaac Newton identificou no campo da física, o que ficou conhecido como a Terceira Lei de Newton: "se um corpo A aplicar uma força sobre um corpo B, receberá deste uma força de mesma intensidade, mesma direção e sentido oposto à força que A aplicou em B".

Considerando os ensinamentos de Antoine Lavoisier, em especial sua máxima: "na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", conclui, então, que a teoria da causa e efeito da tradição hermética aplicar-se-ia à metafísica, da mesma forma que a terceira lei de Newton aplica-se à física. Eureka, eu tinha finalmente descoberto um princípio, mesmo que não fosse passível de comprovação prática, aplicável à metafísica. Durou pouco a minha certeza...

Ao ler Carl Gustav Jung, descobri um novo conceito, a sincronicidade, por ele criado na tentativa de explicar acontecimentos que não podem ser definidos por meio da teoria causalista. A sua explicação estaria calcada numa relação de significado entre dois ou mais eventos, talvez por isso seja também chamada por seu elaborador de coincidência significativa. Em verdade, Jung acrescenta um novo capítulo ao problema da causalidade, tão discutido por David Hume e brilhantemente abordado por Immanuel Kant.

O cerne da teoria de Jung é a inexistência de uma relação de causalidade entre os eventos envolvidos na experiência, ou seja, não há relação direta, pelo menos que se conheça no campo da física, entre a causa e o efeito. As circunstâncias envolvidas, teoricamente, seriam aleatórias, entretanto, condicionadas a um padrão subjacente expressado por eventos ou relações significativos.

Jung propôs o acréscimo da sincronicidade como quarto elemento à tríade: espaço, tempo e causalidade, que caracterizou por tanto tempo a física clássica. Dois campos do conhecimento humano, a física e a psicologia, nunca estiveram tão próximos com as teorias de Jung sobre a sincronicidade e Einstein sobre a relatividade.

Apesar de ser um conceito relativamente novo, enquanto forma, não o é enquanto conteúdo, senão vejamos. Uma das referências mais antigas sobre o tema remonta ao próprio conceito do Tao, que, segundo a tradição chinesa, já fazia referência a uma racionalidade latente em todas as coisas. A sabedoria ocidental, que teve como berço a Grécia Antiga, também já desconfiava da existência de uma unidade em todas as coisas. As diversas épocas que a filosofia ocidental poderia ser dividida, abrigaram pensadores precursores de seu tempo, como Platão e Aristóteles, na Grécia Clássica; Mestre Eckhart e Duns Scotus, na Idade Média; e Nicolau de Cusa, Giovanni Pico Della Mirandola e Ficino, na Renascença.

O desenvolvimento da física subatômica do século XXI, em que pese ter posto por terra todas as minhas tentativas de encontrar pelo menos uma lei aplicável à metafísica, teve o grande mérito de aproximar a física da metafísica, talvez não pelo que se saiba, mas pelo o que não se saiba. Voltarei em outra oportunidade a esse tema, entretanto deixo os leitores com a reflexão de Karl Jaspers: "Cada vez que acreditamos haver descoberto na realidade empírica uma cumeada onde o ser se manifesta, ela depressa se reduzirá a um simples ponto e se apagará. É essa evanescência que salva a verdade do ser, verdade que, como subsistente, se perderia... A impossibilidade de duração faz com que toda a plenitude, toda a consumação, escapem à existência que gira em torno desse ponto evanescente. O instante, como tal, é tudo e, no entanto, ele não é mais que instante."

Boa sorte a (nós) todos.

Eusébio/CE, 28 de junho de 2008.

José Anastácio de Sousa Aguiar

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Sobre o autor

Anastácio Aguiar é Psicanalista, Hipnólogo e Terapeuta de vidas passadas e escreve a Coluna desde 2008.