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Com alta do IPCA, analistas já veem espaço para Selic a 9% no fim do ano

O inflação avançou 0,87% em agosto e chega a 9,68% no acumulado em 12 meses, informou IBGE.
Por Estadão Conteúdo

A surpresa para cima com o resultado de agosto do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do País, já mexe com as projeções de analistas do mercado para a Selic, a taxa básica de juros. A inflação avançou a 0,87%, acima do teto das estimativas do Projeções Broadcast, que iam de 0,62% e 0,85%.

“O IPCA de agosto será uma chamada para revisões de inflação e Selic”, disse o sócio e economista-chefe da AZ Quest, Alexandre Manoel. Ele esperava uma alta de 0,71% do IPCA, mas admite que foi surpreendido pela alta dos preços industriais.

A previsão da AZ Quest para a inflação no ano, que atualmente é de 7,70%, será revista para cima e a Selic, que para o economista estava se descolando da sua projeção de 7,75% para algo como 8%, agora está mais para 9% no fim de 2021.

“Nada tem ajudado o Banco Central. Estamos agora com a iminência de uma crise hídrica que até pouco ante da metade do ano não estava no cenário de ninguém e que já está impactando a economia e temos ainda essa incerteza institucional. Temos uma inflação mais persistente do que qualquer um esperava”, disse o economista.

A meta de inflação é fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Para alcançá-la, o Banco Central eleva ou reduz a taxa básica de juros da economia, que hoje está em 5,25% ao ano.

Na hipótese de a meta de inflação ser descumprida, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, terá de enviar uma "carta aberta" ao ministro da Economia, Paulo Guedes, explicando as razões para o estouro. A última vez que isso ocorreu foi em janeiro de 2018 e o motivo foi o descumprimento em outra direção, por a inflação do ano anterior ter ficado abaixo do piso da meta. O ex-presidente Ilan Goldfajn justificou, à época, que o maior impacto para a inflação ter desabado em 2017 foi a queda dos alimentos por causa da safra recorde.

A ASA Investments elevou a projeção para a taxa Selic de 8% para 9% ao ano, com mais três altas de 1 ponto porcentual e um aumento final de 0,75 ponto, no início de 2022.

Segundo o economista-chefe da instituição, Gustavo Ribeiro, porém, a chance de um ajuste maior, de 1,25 ponto está aumentando, mas dependeria de uma piora ainda mais acentuada das projeções de inflação para 2022 ou sinais de desancoragem mais ampla, com as projeções de 2023, por exemplo, piorando também.

A ASA também elevou a projeção do IPCA deste ano de 7,8% para 8,2%. O pico deve ocorrer em setembro, quando a inflação deve superar os dois dígitos no acumulado de 12 meses (10,09%), considerando uma projeção mensal de 1,02%, em que cerca de 0,30 ponto deve corresponder ao impacto da bandeira escassez hídrica.

Para o economista João Leal, da Rio Bravo Investimentos, o resultado é um desastre completo e reflete a tempestade perfeita vivida pelo País. “É uma inflação mais alta com atividade mais fraca, crise política e crise institucional. São todos os fatores atuando conjuntamente”, afirma.

O dado de agosto, segundo Leal, traz uma notícia ruim para a política monetária. A previsão é de alta de 1,25 ponto porcentual da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 21 e 22 deste mês, com mais duas altas de 1 ponto nos encontros posteriores. Dessa forma, a expectativa da Rio Bravo para a taxa de juros no fim de 2021 subiu de 8,0% para 8,5%, mantida até o fim de 2022.

A Rio Bravo também vai revisar a projeção para o IPCA 2021, de 8,1% para, pelo menos, 8,5%. A estimativa para 2022, antes de 4,0%, agora tem um piso de 4,5%. Leal destaca que a pressão inflacionária agora é generalizada, sem concentração em alimentos, energia elétrica ou combustíveis. “É um problema que continua em bens industriais, em serviços, pela reabertura, e que agora também aparece em Educação e em Comunicação”, acrescenta.

A estrategista-chefe da MAG Investimentos, Patrícia Pereira também considera que o IPCA de agosto mostra uma piora do balanço de riscos para a inflação e aumenta a probabilidade de aceleração do ritmo de alta da Selic para 1,25 ponto porcentual. Ou, no cenário que considera mais provável, de manutenção do ritmo corrente por mais tempo, que implicaria em juros acima do nível de 8% no fim do ano.

“A dinâmica das aberturas da inflação até antes de agosto respaldava a manutenção do ritmo mas, agora, acho que essa dinâmica de núcleos e grupos conseguiu ser pior do que a do cenário anterior”, afirma. “Botando na conta que o ritmo de 1 ponto virou piso e que o cenário está mais complicado, vemos espaço para Selic acima de 8,0%.”

A analista destacou, na avaliação do IPCA de agosto, as pressões disseminadas nos bens industriais (0,68% para 1,03%), causadas pela escassez de insumos que deve continuar pelo menos até o fim do ano, e em preços administrados (1,68% para 0,95%), com novas pressões à frente devido à adoção da bandeira “escassez hídrica” de energia elétrica.

No entanto, Patrícia afirma que os próximos passos da política monetária ainda vão depender da resolução de outras questões. Para a economista, problemas fiscais como o sistema de pagamento dos precatórios pelo governo federal deveriam ser endereçados antes da próxima reunião de política monetária para abrir espaço no balanço de riscos.

“Precisamos ver como vai estar esse desenvolvimento político e fiscal às vésperas do Copom. Os precatórios são uma questão urgente, que precisa ser endereçada rapidamente, e o esgarçamento institucional promovido pelo presidente Bolsonaro na terça-feira vai no sentido oposto disso”, comenta.

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