Quase metade da população adulta brasileira está inadimplente. Em janeiro de 2026, o número chegou a 81,2 milhões de pessoas, segundo dados da Serasa Experian, o maior já registrado. O Banco Central confirmou que a inadimplência média do país alcançou 4,2%, também recorde da série histórica iniciada em 2011. No crédito livre, onde as condições são negociadas diretamente entre bancos e clientes, o índice ultrapassou 5%. Desde o início do terceiro mandato de Lula, 11,3 milhões de pessoas passaram a integrar essa condição.
O perfil dos inadimplentes mostra que dois terços estão na faixa entre 26 e 60 anos, ou seja, a população economicamente ativa. O endividamento das famílias brasileiras fechou 2025 em 49,7% da renda, com alta de 1,3 ponto percentual no ano. Em dezembro, o comprometimento da renda com dívidas chegou a 29,2%, reduzindo a margem para imprevistos financeiros. Além das famílias, empresas também enfrentam dificuldades: em novembro, havia 8,9 milhões de CNPJs negativados, número sem precedentes.
O ambiente corporativo reflete a mesma pressão. No final de dezembro, o Brasil registrou 5.680 empresas em processo de recuperação judicial, um aumento de 24,3% em relação ao ano anterior. Apenas no quarto trimestre de 2025, foram 510 novas entradas, o maior volume desde o início do monitoramento em 2023. O valor total das dívidas dessas empresas chegou a R$ 40 bilhões, frente aos R$ 16 bilhões do trimestre anterior, representando crescimento de 150%.
Os juros elevados são apontados como principal fator para o avanço da insolvência. Em janeiro de 2026, a taxa média das concessões do sistema financeiro atingiu 32,8% ao ano, maior índice desde 2016. Para pessoas físicas, o custo médio subiu para 38% ao ano, enquanto no crédito livre chegou a 47,8%. O spread bancário alcançou 21,9 pontos percentuais, maior desde 2017. Com a Selic em 15% durante grande parte de 2025, o custo do dinheiro limitou investimentos e dificultou o pagamento de dívidas.
O cenário internacional também preocupa. O conflito no Irã pode manter o petróleo acima de US$ 100 por barril, pressionando a inflação global e os juros. Segundo a Coface, havia expectativa de melhora nas insolvências corporativas apenas em 2027, já que os efeitos da política monetária levam de 12 a 18 meses para impactar a economia real. Caso a guerra se prolongue, uma nova onda de inflação pode levar bancos centrais a retomar o ciclo de aperto monetário, ampliando os riscos para empresas e famílias brasileiras.
Davi Fernandes
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