Aos 76 anos, Gloria Perez, uma das autoras da teledramaturgia brasileira, fez uma reflexão sobre o cenário atual das novelas, afirmando que parte de suas tramas, como O Clone, América e Caminho das Índias, não seria possível ser transmitida hoje. Em entrevista à Folha de S.Paulo, a autora alegou que a censura moral presente na sociedade atual é mais sufocante do que a imposta durante o regime militar, quando a censura era centralizada na figura de Solange Hernandes, chefe da Divisão de Censura de Diversões Públicas.
“Era ela quem mandava cortar as coisas. Só que agora temos uma multiplicidade enorme de ‘Solanges’. Nas redes sociais, com raras exceções, cada pessoa é uma Solange diferente, julgando o outro e tentando cassar a palavra alheia. Não era assim. Antes, você tinha uma censura. Agora, a censura está espalhada na sociedade. É muito pior”, afirmou.
Segundo Gloria, o aumento da censura moral, agora distribuída pela sociedade, resultou em um empobrecimento da dramaturgia. A autora acredita que o “politicamente correto” engessa as tramas, ao eliminar o conflito, considerado por ela o elemento fundamental das novelas. “Ao fazer isso, o politicamente correto amordaça e empobrece o autor. Só que novela é conflito. O que você procura como criador de histórias é compreender e mostrar os sentimentos humanos em relação a um determinado assunto. Mas, hoje em dia, com essa coisa de não poder ofender um grupo, não poder ofender outro, você acaba fazendo uma novela sem conflito”, explicou.
Gloria também comentou sobre sua saída da TV Globo, após a emissora vetar sua novela Rosa dos Ventos, que trataria de temas como aborto e política. Ela lamentou a decisão, afirmando que sua assinatura é justamente lidar com temas delicados e gerar discussão. “Decidiram adiar a novela por causa do aborto. Aí, falei: ‘Gente, se tem uma pessoa que sabe tocar com delicadeza nesse tipo de tema, sou eu. A minha história toda mostra isso’. Mas, aí, veio o medo de desagradar algumas áreas. A minha assinatura é lidar com temas delicados e trazer o público para a discussão. Se não puder fazer isso, acabo”.
Em seu diagnóstico sobre a crise criativa da TV aberta, Gloria Perez apontou a cultura woke como uma das principais responsáveis pela limitação da criatividade. “Introduziu um cerceamento à imaginação”, afirmou.”, segundo ela, a falta de liberdade para criar e tocar em temas relevantes resultou em produções sem ousadia, empobrecendo o papel das novelas como um espelho social.
Francielle Barroso
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