Política

Entenda por que a PF fez buscas na mansão do senador Ciro Nogueira

A Polícia Federal ainda realizou buscas nas empresas do senador em Teresina e em imóveis em Brasília e São Paulo.

Bárbara Rodrigues
Teresina
- atualizado

Na manhã dessa sexta-feira (22), a Polícia Federal deu cumprimento a mandados de busca e apreensão em endereços do senador Ciro Nogueira (PP). A operação, batizada de "Compensação", foi autorizada pela ministra Rosa Weber e é decorrente de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), que investiga o senador.

O Ministério Público Federal, por meio da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, foi quem solicitou a abertura de inquérito criminal contra Ciro Nogueira, Edson Antônio Edinho da Sillva, Joesley Batista e Ricardo Saud. O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) deferiu no dia 11 de setembro de 2018 o pedido da procuradora para a instauração do inquérito criminal.

No dia 15 de outubro de 2018, Raquel Dodge, solicitou ao STF que os autos do inquérito fossem encaminhados para a Polícia Federal. Em decisão do dia 6 de dezembro de 2018, a ministra Rosa Weber deferiu o pedido e determinou que os autos do inquérito fossem encaminhados para a PF, para que em 60 dias dessem cumprimento a realização das diligências necessárias. Foi com base nisso que foi realizada a operação "Compensação".

  • Foto: Lucas Dias/GP1Ciro NogueiraCiro Nogueira

Delação

O inquérito é com base nas delações premiadas firmadas em 2017 com Joesley Batista, Wesley Batista, Ricardo Saud, Francisco de Assis e Silva, Florisvaldo Caetano de Oliveira, Valdir Aparecido Boni e Demílton Antônio de Castro.

Dentre os fatos narrados pelos executivos da J&F consta o pagamento de vantagens ilícitas ao senador Ciro Nogueira em duas situações. Em uma delas, Ricardo Saud explicou que comprou o apoio de vários partidos durante a campanha de 2014 e na hora de comprar o do Progressistas, seu contato foi com o senador Ciro Nogueira. O valor inicial estipulado foi de R$ 20 milhões, mas o delator disse que a J&F acabou pagando R$ 42.879.909,45 milhões. Os valores seriam para fazer os partidos apoiarem a campanha de Dilma Rousseff (PT), pois a empresa estava preocupada com uma possível vitória de Aécio Neves (PSDB).

  • Foto: Dida Sampaio/Estadão ConteúdoRicardo SaudRicardo Saud

Envolvimento do Comercial Carvalho no esquema criminoso

Ricardo Saud ainda informou que nessa eleição de 2014, o senador pediu que a maior parte dos pagamentos acontecesse por meio de doações eleitorais oficiais ao Diretório Nacional do PP, mas que aproximadamente R$ 2.879.909,45 milhões foram pagos em espécie por meio do Comercial Carvalho, onde foi passado a alguém a mando de Ciro Nogueira no Piauí.

“A modalidade de pagamento de propina ao PP foi em simulação de doações oficiais e uma parte menor em dinheiro, não havendo pagamentos por meio de notas fiscais frias de serviços não prestado, como ocorreu com a compra de outros partidos”, afirmou Raquel Dodge no pedido.

Documentos apreendidos constam referências a esses pagamentos. No documento “Empresa Doadora” aparece o nome "Coml. Carvalho" com o valor de R$ 6 milhões, e desse valor consta na planilha da J&F que ele foi distribuído da seguinte forma: “PP- Ciro = 5.000.000,00” e “Dep. M. Castro = 1.000.000,00”.

  • Foto: Newton Menezes/Futura Press/Estadão ConteúdoJoesley Batista Joesley Batista

Rompimento com Dilma Rousseff

O segundo caso de doação constante no inquérito, é com base em delação de Joesley Batista, que informou que no dia seguinte ao rompimento do MDB com o governo federal, em março de 2016, se encontrou com o senador Ciro Nogueira, que era um dos líderes do bloco conhecido como “Centrão”. Joesley pediu que Ciro adiasse o encontro que decidiria se o PP iria deixar o governo, como forma de adiar o máximo possível o rompimento da legenda com o governo de Dilma Rousseff. O que acabou acontecendo no mês seguinte.

O senador teria aceitado, mas para isso Joesley afirmou que teve que pagar o valor de R$ 8 milhões. O encontro ocorreu na casa de Joesley, em Brasília.

O pagamento teria ocorrido apenas em março de 2017, quando Ciro Nogueira foi até a residência de Joesley em São Paulo. Ricardo Saud também participou do encontro. Segundo o delator Joesley Batista, Ciro colocou à disposição diversos cargos do governo federal, já na gestão de Michel Temer, que poderiam atender aos interesses da J&F. Destacou ainda que nesse dia, Ciro recebeu uma mala com R$ 500 mil.

Abertura de inquérito

“Nesse cenário, de recebimento em espécie de valores devidos por parlamentar federal, além de recebimento de vantagem indevida como doação eleitoral, não se pode deixar de destacar, também, a possibilidade de cometimento de crime de lavagem de dinheiro diante da crível chance de ter ocorrido ocultação dos valores”, afirmou a procuradora-geral Raquel Dodge no pedido para a instauração do inquérito.

  • Foto: Dida Sampaio/Estadão ConteúdoRaquel DodgeRaquel Dodge

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