A Polícia Civil do Piauí, por meio do Departamento de Combate à Corrupção (DECCOR), deflagrou nesta terça-feira (14) a Operação Gabinete de Ouro, visando combater um esquema de corrupção que movimentou milhões de reais na Prefeitura de Teresina na gestão do ex-prefeito Dr. Pessoa. Segundo os investigadores, o grupo era liderado por Sol Pessoa, sobrinha do ex-prefeito Dr. Pessoa, e contava com familiares, empresários e servidores públicos, todos com funções definidas no esquema.
Os policiais cumpriram quatro mandados de prisão e sete mandados de busca e apreensão em diversos endereços de Teresina. Conforme apuração do GP1, foram presos Suelene Pessoa, conhecida como Sol Pessoa — sobrinha do ex-prefeito Dr. Pessoa —, Marcus Almeida de Moura, Mauro José de Sousa e Rafael Thiago Teixeira Ferreira.
De acordo com a investigação, Sol Pessoa comandava toda a operação, decidindo sobre contratações, pagamentos e distribuição dos lucros. Ela exercia forte influência política e controlava a indicação de cargos ligados a terceirizados e prestadores de serviço, garantindo que o grupo mantivesse o controle sobre os recursos públicos.
Entre 2020 e 2024, Sol declarou renda de R$ 415 mil, mas os relatórios mostram créditos superiores a R$ 1,2 milhão em suas contas, provenientes de transferências de terceiros e de empresas sem atividade econômica real. O padrão de consumo da investigada, incluindo gastos em cartões de crédito muito acima da renda, chamou atenção dos auditores e reforçou o papel central da ex-servidora na engrenagem do grupo.
Papel dos demais investigados
No núcleo financeiro, Marcus Almeida de Moura atuava como operador empresarial. Proprietário da MM Transportes e Turismo LTDA, ele era responsável por criar e gerir empresas de fachada, emitir notas fiscais falsas e movimentar grandes quantias de dinheiro para mascarar a origem ilícita. Embora tenha declarado faturamento zero em 2022 e 2023, Marcus movimentou mais de R$ 5 milhões em suas contas bancárias. A Receita Federal identificou uma diferença superior a R$ 15 milhões entre os valores que ele declarou como pessoa física e o que efetivamente recebeu em quatro anos.
Já Rafael Thiago Teixeira Ferreira, servidor público que possuía três vínculos — na Assembleia Legislativa, na Secretaria de Agronegócio e na Fundação Municipal de Saúde —, tinha papel central como operador de confiança dentro da máquina pública. Com salário médio de R$ 5 mil da Prefeitura de Teresina, movimentou mais de R$ 4,3 milhões entre 2020 e 2024, realizando pagamentos pessoais de Sol Pessoa e repasses para empresas e construtoras usadas pelo grupo.
Em apenas um ano, ele movimentou R$ 2,3 milhões em operações, muitas delas em espécie, incluindo transferências fragmentadas para a construtora PAVCON, que servia como canal para reformas em imóveis da investigada.
Já Mauro José de Sousa desempenhava papel estratégico nos bastidores. Além de atuar como motorista, realizava depósitos em espécie nas contas da construtora PAVCON, usada para escoar recursos ilícitos. Segundo o relatório do COAF, ele atuava em conjunto com Marcus Almeida, Rafael Thiago e Sol Pessoa, garantindo que o dinheiro chegasse aos destinos finais sem levantar suspeitas.
Como o esquema funcionava
O grupo obtinha recursos principalmente por meio de rachadinhas e propinas, obrigando funcionários e terceirizados a devolver parte dos salários. Outra fonte de recursos eram fraudes em contratos e serviços públicos, utilizando empresas fantasmas e notas fiscais falsas para inflar valores e justificar pagamentos inexistentes. O dinheiro arrecadado era lavado em um esquema de transferências, fracionamento de valores e reintegração para despesas pessoais, obras e investimentos empresariais.
Um dos principais canais utilizados era a construtora PAVCON, formalmente contratada para obras em imóveis de Sol Pessoa, mas que na prática recebia pagamentos fracionados e fora do sistema bancário.
Descoberta e desdobramentos
O esquema começou a ser investigado após relatórios do COAF indicarem movimentações incompatíveis com as rendas declaradas. Durante a operação, foram cumpridos mandados de busca, apreensão e sequestro de bens em Teresina e em outros municípios do Piauí, incluindo veículos, documentos e dispositivos eletrônicos.
A Polícia Civil descreve o caso como "um esquema sofisticado, combinando corrupção administrativa, peculato e lavagem de dinheiro", que movimentou dezenas de milhões de reais e utilizava empresas fantasmas, contas de terceiros e servidores “laranjas” para disfarçar a origem ilícita dos recursos.
Rodrigo Mendes
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