A vida da servidora pública federal Ana Beatriz Gori Sampaio virou de cabeça para baixo após ela ser acusada de sequestrar o próprio filho, fruto de seu relacionamento com o empresário português José Alberto Mendes Sampaio. Desde então, ela e a criança passaram a morar na cidade de Teresina, por ela trabalhar no Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI), e foi surpreendida quando, em julho deste ano, o menino foi levado pelo ex-marido em um voo clandestino para Portugal. Agora, brasileira e português enfrentam uma batalha judicial diplomática de grande complexidade.
Em entrevista exclusiva para a repórter Nathália Carvalho, da TV GP1, a funcionária pública deu detalhes sobre a disputa para reaver o convívio com o filho, arrancado do seu convívio em julho deste ano. O menino iria passar 15 dias de férias com o pai, e logo retornaria para a casa dela. Mas nada aconteceu como o esperado, pois, do dia para a noite, a criança foi levada para Portugal pelo pai, e não retornou.
“Nas férias era combinado, inclusive por decisão judicial, que esse período seria dividido de forma igualitária. O meu filho passaria 15 dias com o pai e 15 dias comigo. Em julho, eu e o José Alberto combinamos de ver ele dançando, porque ia ter uma festa junina na escola, e depois ele levaria o nosso filho para passar as férias”, afirmou a servidora.
Ana Beatriz ainda conseguiu manter contato com a criança por três dias, mas logo depois, foi privada de ter qualquer ligação com o filho. Tempo depois, o empresário José Alberto lhe comunicou que o menino já estava em território português. “Eu conversei com ele [filho] por telefone por mais uns três dias, e perdi o contato. Tentava ligar, meu ex-marido não me atendia. Mandava mensagem, meu ex-marido não respondia, avô paterno e avó materna também não mandavam nenhuma resposta. E depois de dias sem nenhuma resposta, eu comecei a ficar muito preocupada, até que eu acordei com uma mensagem do meu ex-marido dizendo que eles estavam em Portugal, que era para eu parar de fazer mal ao meu filho, que ele estava seguro em Portugal, e que depois trataria comigo as questões de contato e visita”, contou a mãe.
Passaporte da criança está retido
O caso levantou a suspeita em relação ao translado da criança, visto que o passaporte dela está retido junto à Justiça Federal em razão de uma denúncia feita pelo próprio pai no ano de 2023, em que ele acusou a mãe do seu filho de sequestro internacional. “Em abril de 2023 eu vim em uma viagem ao Brasil com meu filho para fazer os meus exames periódicos do Tribunal Regional Eleitoral do Piauí (TRE-PI), onde eu sou servidora há 10 anos. E também tinha um retorno do meu filho programado ao odontologista. Nessa mesma semana eu havia brigado com meu ex-marido, porque a relação já estava muito frágil, e ele me expulsou de casa. Com essa expulsão, eu passei uma semana no hotel e antecipei minha vinda ao Brasil com meu filho. Dias depois da minha chegada no Brasil, eu recebi uma notícia no meu e-mail que estava sendo acusada de sequestro internacional. Quando descobri que meu ex-marido fez essa denúncia, o trâmite processual começou, e eu decidi não voltar para Portugal por medo de ser presa”, confessou Ana Beatriz Gori.
Nesse processo, a Justiça Federal determinou que a servidora e o filho estavam proibidos de sair do Piauí, além de confiscar o passaporte de ambos e regulamentar o regime de visitas. Mesmo com essa situação, o empresário José Sampaio continuou tendo contato com a criança. Apesar da decisão judicial, ele conseguiu viabilizar, de forma ilegal, a saída do filho do país.
Aeronave foi emprestada por coronel da Polícia Militar
Ao GP1, Ana Beatriz Gori revelou que a Justiça chegou a indagar o seu ex-marido sobre a dinâmica usada por ele para deixar o Brasil com o filho, descumprindo uma ordem judicial. O português não respondeu, mas investigações apontam que ele, o filho, e a avó paterna da criança pegaram um avião emprestado de um coronel da Polícia Militar do Piauí na cidade de Altos, onde começaram o trajeto clandestino para sair do país.
“A rota foi de Altos para Paragominas, de lá para o Iapoque, onde provavelmente atravessaram pela fronteira seca, e de lá voaram da Guiana para Portugal. Essa rota é conhecida por ser uma rota de tráfico de drogas, de crianças, inclusive tinha uma outra criança nesse voo com meu ex-marido e meu filho. Então eu acho que são fatos muito graves que merecem uma investigação profunda e rápida. Como meu ex-marido entrou em Portugal com o meu filho?”, indagou Ana Beatriz.
Ligações monitoradas
Com a distância, a servidora pública tentou, reiteradamente, manter contato com o filho. Ela descreveu que muitas das ligações feitas a José Sampaio, o filho chorava, pedindo para retornar para Teresina. “Depois que esse material foi encaminhado ao Judiciário, o meu ex-marido deixou de atender minhas ligações. Das poucas vezes que consigo ligar, as conversas são monitoradas, e meu filho quase não fala mais comigo. É visível o desconforto dele nas chamadas porque o meu ex-marido está sempre ao lado dele”, destacou a mãe da criança.
Guerra processual
O caso ganhou mais uma reviravolta para Ana Beatriz Gori, pois ela também passou a ser acusada pelo ex-marido de falsificar os documentos do filho. “Eu fui acusada de falsidade ideológica. Eu continuo vivendo uma guerra processual com meu ex-marido, em que ele me acusa de diversos crimes”, reforçou a servidora.
Em Portugal, José Sampaio ainda obteve, judicialmente, a guarda provisória do filho. Enquanto isso, no Brasil, a mãe da criança ainda luta para tentar reaver o convívio com o menino.
Carolina Matta
Ver todos os comentários | 0 |