O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) deflagrou, na manhã desta sexta-feira (19), a Operação Juros Zero, mirando um esquema sofisticado de fraudes na folha de pagamento dos servidores públicos do Distrito Federal. Entre os principais alvos da ação, que cumpriu mandados em órgãos como o Banco de Brasília (BRB) e a Secretaria de Economia, destacam-se o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, e o ex-secretário de Economia, o advogado piauiense Ney Ferraz Júnior. A investigação aponta que descontos indevidos, camuflados sob a rubrica de "taxas", eram aplicados compulsoriamente nos contracheques dos funcionários distritais.
O advogado piauiense Ney Ferraz Júnior ganha destaque no inquérito devido ao seu papel crucial na gênese do suposto esquema. Segundo o Ministério Público, as irregularidades teriam sido viabilizadas por um decreto assinado em 8 de agosto de 2024, originado na Secretaria de Economia, então sob sua gestão. O texto normativo criou uma modalidade de desconto em folha para "amortização de transações sem cobrança de juros", o que, na prática, abriu as portas para que instituições financeiras operassem o adiantamento salarial de forma nebulosa, ferindo os princípios da administração pública.
A rapidez com que o setor privado reagiu ao decreto de Ferraz chamou a atenção dos investigadores. Apenas seis dias após a publicação da norma, o banco digital PicPay, integrante do grupo J&F, formalizou interesse em operar as antecipações salariais, serviço até então restrito ao BRB. O modelo de negócio consistia em oferecer crédito sob a promessa de "juro zero", mas cobrando uma "taxa de antecipação" que, conforme apontado pelo Tribunal de Contas do DF (TCDF), possuía natureza econômica de custo de crédito, configurando juros disfarçados para ludibriar o servidor e os órgãos de controle.
O impacto financeiro da manobra é vultoso e atingiu diretamente o bolso do funcionalismo. Entre agosto de 2024 e agosto de 2025, estima-se que mais de R$ 80 milhões tenham sido retirados compulsoriamente dos contracheques dos servidores distritais. O TCDF foi enfático ao classificar a cobrança como irregular, destacando que a nomenclatura utilizada era irrelevante diante da natureza econômica da operação. As buscas realizadas hoje em endereços ligados ao PicPay, ao Iprev e à Associação dos Servidores Públicos buscam consolidar as provas desse desvio milionário.
Esta não é a primeira vez que os nomes de Ney Ferraz e Paulo Henrique Costa aparecem em investigações de grande repercussão, reforçando o histórico de suspeitas que pairam sobre a gestão de recursos e a articulação política no Distrito Federal.
Gil Sobreira
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