O Partido Verde foi o destino escolhido por Charles Pessoa, ex-coordenador do DRACO no Piauí, para dar início a uma nova etapa de sua trajetória, agora, no terreno sinuoso da política. O movimento, embora previsível para quem acompanha os bastidores, consolidou rumores que há meses circulavam nos corredores do poder e nas redações. Desde então, pairava a dúvida: o delegado, conhecido pelo pulso firme nas operações de combate ao crime organizado, teria decidido trocar a farda da lei pelo palanque das urnas?
Pouco antes da confirmação de sua pré-candidatura, esta colunista teve a oportunidade de conversar com o delegado. A conversa, franca, revelou os motivos de uma transição que, segundo ele, não nasceu de ambição, mas de frustração, a frustração de quem viu, repetidas vezes, o esforço de uma equipe inteira se esvair diante da leniência do sistema.
Charles falou com o tom amargo de quem conhece por dentro o drama das corporações. Policiais que saem de casa diariamente sem saber se voltam. Que enfrentam criminosos fortemente armados, prendem, sobrevivem e, ao fim do dia, assistem os mesmos presos sendo postos em liberdade. “É desalentador”, resumiu.
Da indignação, amadureceu uma convicção: o combate ao crime não se faz apenas com operações, mas também com leis mais firmes, menor flexibilidade judicial e políticas públicas eficazes. A política, nesse contexto, surgiu como o campo onde poderia continuar defendendo a população agora, “pela parte de cima”, como ele define.
Ainda assim, o desafio não é pequeno. A memória do eleitor piauiense é repleta de nomes da segurança pública que fizeram o mesmo caminho, e nem todos deixaram boas lembranças. O passado recente cobra prudência dos que tentam unir o discurso da ordem com a prática da política.
Mas Charles aposta na imagem que construiu à frente do Draco: a de um delegado combativo, reconhecido nas ruas, especialmente entre os jovens. Sua (talvez) pré-campanha tem sido meticulosamente articulada. Ele aposta em palestras em escolas, um diálogo direto com o eleitorado que votará pela primeira vez, e que se informa majoritariamente pelas redes sociais.
O bordão do delegado, popularizado nas plataformas digitais e replicado em músicas e memes, tornou-se quase uma marca registrada. Nessa mistura de autoridade e carisma, Charles parece testar um novo modelo de liderança política: um "influenciador" da segurança pública, que tenta transformar a experiência policial em capital político.
Resta saber se o eleitorado verá nessa passagem da delegacia ao plenário uma coerência de propósitos ou apenas mais um capítulo na longa história de promessas que a política piauiense coleciona.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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