Na aritmética da política, números falam mais alto que simpatias. E o vereador Draga Alana, dono de 9.233 votos no último pleito, sabe disso melhor que ninguém. O problema é que os partidos também sabem e, por isso mesmo, hesitam. Não é segredo que o vereador mira agora a Assembleia Legislativa do Piauí. Traz na bagagem não apenas a condição de campeão de votos, mas o incômodo de ser um puxador de cadeiras, desses que garantem espaço para si e empurram veteranos para fora do tabuleiro.
O cálculo é simples: Draga Alana chega com densidade eleitoral suficiente para reforçar qualquer legenda, sobretudo pelo apelo junto às camadas mais baixas e pela presença ruidosa nas redes sociais. Mas, ao mesmo tempo, sua filiação ameaça antigos donos de mandato que, sem o fôlego das urnas, sobrevivem mais pela tradição e pelos arranjos de bastidores do que pela força popular.
Nos corredores, o que se ouve é desconfiança. Fontes ouvidas pela coluna confidenciaram que o vereador carrega “um poder de voto incômodo demais”. Outras, mais ríspidas, afirmam que as reuniões em torno de sua possível filiação foram menos sobre “projeto partidário” e mais sobre "cada um por si". No MDB, o recado foi claro. O líder João Mádison não titubeou ao informar que a filiação do vereador não passou no crivo da sigla. Tradução política: o MDB preferiu preservar os seus a correr o risco de abrir espaço para alguém que poderia sepultar nomes tradicionais.
No PT, a rejeição veio em tom moralista. O deputado Francisco Lima declarou que Draga Alana não teria o “perfil” adequado para ingressar no partido. Questionei alguns dos nomes mais antigos da legenda e posso resumir suas respostas em uma única frase: “medo de perder influência". É a velha política em seu dilema eterno: abraçar o novo e arriscar perder terreno, ou fechar portas e apostar na sobrevivência dos mesmos rostos de sempre. Draga Alana, por ora, vive o paradoxo de ser forte demais para ser ignorado e ameaçador demais para ser aceito. Um nome que todo partido gostaria de ter na urna, mas nenhum quer dividir no plenário.
Resta saber qual legenda terá a ousadia de apostar no peso do voto popular, mesmo que isso custe a aposentadoria precoce de alguns veteranos. O destino do vereador será, em última instância, um teste: até onde vai a coragem dos partidos diante de quem pode, com um punhado de números, redesenhar a geografia política da Assembleia?
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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