Há sinais visíveis de que o Partido dos Trabalhadores no Piauí atravessa um daqueles períodos em que a unidade é mais uma exigência retórica do que uma realidade concreta. Nos bastidores, o discurso de coesão dá lugar à inquietação, e as falas de lideranças revelam fissuras que o marketing da base tenta disfarçar com ensaiada harmonia.
O episódio mais recente veio à tona com as declarações do ex-deputado federal Antônio José Medeiros, um petista histórico, que afirmou sem rodeios que “boa parte do PT não votará em Júlio César (PSD)” para o Senado em 2026. A frase, ainda que envolta no tom pessoal de quem já viveu as agruras da política, ecoou pelos corredores do Palácio de Karnak e encontrou ressonância nas conversas reservadas entre parlamentares da base.
A fala de Medeiros trouxe à superfície uma questão que muitos preferem deixar soterrada: o PT piauiense está dividido, não em torno de princípios, mas de espaços, vaidades e hierarquias internas. Enquanto o governador Rafael Fonteles insiste publicamente que o “time anda unido”, as movimentações subterrâneas mostram que a harmonia não é tão sólida quanto o discurso oficial quer fazer crer.
De um lado, o chamado “PT raiz” tenta preservar um certo protagonismo na chapa majoritária, especialmente na escolha do vice. Do outro, uma ala mais pragmática, próxima ao PSD de Júlio César e ao MDB, aposta na estabilidade das alianças regionais e no projeto de continuidade de Fonteles.
O próprio deputado Merlong Solano reconheceu, em recente entrevista, que sua inclusão entre os nomes cotados para a vice “foi resultado de um fogo cruzado” e garantiu que não pretende se colocar nessa posição. Um gesto que, para olhos atentos, não revela apenas humildade política, mas sintomas de desalinhamento interno e desconforto com a condução da articulação.
Enquanto isso, o comando do partido tenta controlar a narrativa, reafirmando disciplina e fidelidade. Fonteles, com seu estilo conciliador, fala em “base coesa”. Mas, se a união é tão firme, por que repetir tanto a palavra? Por que lembrar, com certo tom de ameaça, que quem divergir pode sofrer as consequências regimentais? Em política, quando se precisa reafirmar demais a lealdade, é sinal de que a dúvida já se instalou.
Do outro lado desse cenário, surge o nome de Georgiano Neto, filho de Júlio César e deputado federal, com uma postura calculadamente apaziguadora. Ao ser questionado sobre as declarações de Medeiros, tratou de baixar o tom, com a diplomacia de quem conhece o valor do silêncio no tempo certo. “Olha, eu não vi ainda essa declaração do ex-deputado Antônio José Medeiros. É um quadro importante do PT, um petista histórico, uma pessoa que nós respeitamos muito. Se existe resistência, nós vamos dialogar para buscar quebrar essas resistências e alcançar a unidade máxima dentro da base.”
A resposta, aparentemente conciliadora, escancara uma contradição: se é preciso dialogar para quebrar resistências, é porque elas existem. E se há resistência dentro da base, então a narrativa da unidade absoluta se dissolve no ar. O episódio expõe, de forma sutil porém incontornável, que o PT já não consegue manter o mesmo controle sobre seus quadros e aliados. O partido que outrora ditava o ritmo das composições no estado hoje precisa negociar cada passo, cada palavra, cada gesto.
A verdade é que, entre os sorrisos dos eventos oficiais e as conversas reservadas de fim de corredor, o PT piauiense tenta reencontrar sua própria voz. E enquanto o partido se esforça para mostrar que “anda unido”, o que se vê, na prática, é um equilíbrio precário, sustentado por discursos, conveniências e o velho instinto de sobrevivência política. Porque, como se diz nos bastidores: quando o partido precisa lembrar o tempo todo que está unido, é porque alguém, em algum ponto da engrenagem, já começou a puxar a rédea para o lado oposto.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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