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Colunista Caroline Vitorino
Análise política
GP1

Conflito interno expõe racha na aliança cruzada entre MDB e PSD

Segundo fontes, articuladores do PSD consideram “inaceitável” a exclusão de Draga Alana da chapa.

Na Alepi, véspera de feriado costuma ser território de ecos. Mas na quarta-feira (20), que antecedeu o Dia da Consciência Negra, segundo apurações feitas no assoalho de madeira onde confidências costumam escorregar, houve barulho suficiente para tirar raposas do torpor. O motivo atende pelo nome de Georgiano Neto, que resolveu transformar uma visita ocasional em declaração de independência, ou algo muito parecido com isso.

Segundo apurações feitas por esta coluna, Georgiano Neto e Severo Eulálio protagonizaram um diálogo que, em outra circunstância, seria apenas divergência. Naquela tarde, porém, virou sinalização. Georgiano insinuou que, para preservar a fusão MDB-PSD, sua saída seria solução fácil, desde que pudesse montar uma chapa no PSD capaz de eleger cinco deputados ligados a ele. No mundo parlamentar, isso se chama traçar o mapa da mina. No mundo político, se chama provocação.

Foto: Divulgação/AscomEduardo Draga Alana e Georgiano Neto
Eduardo Draga Alana e Georgiano Neto

A plateia foi pequena; o impacto, não. Severo ouviu e respondeu no tom de quem não gosta de deixar frases suspensas: a chapa do MDB não precisa de tutela e, se quiser sair, que saia. Acrescentou a observação, nada acidental, de que o pai de Georgiano disputa o Senado. A política, afinal, nunca perde a chance de lembrar quem depende de quem.

A partir desse instante, a política piauiense ganhou mais uma crise para chamar de sua.

E, como se não bastasse a turbulência explícita, esta coluna apurou que a temperatura entre MDB e PSD subiu ainda mais. Nas conversas reservadas, lideranças relatam que a chamada “aliança cruzada” vive seu momento mais delicado desde que foi costurada, e que o epicentro da crise atende pelo nome de Draga Alana.

Segundo fontes que transitam nos dois lados, articuladores do PSD (Júlio César) consideram “inaceitável” a exclusão do vereador da chapa simbólica montada para acomodar interesses mútuos. Há, inclusive, quem avalie que o gesto do MDB foi lido como um sinal de desconfiança  e, em política, esse ruído costuma custar caro. A cúpula pessedista já deixou claro, longe dos microfones, que recuar nesse ponto seria admitir fragilidade interna, algo impensável em ano de composição estratégica.

Do outro lado, o MDB sustenta a decisão como “irreversível”. O recado que circula nos bastidores é de que o partido não pretende abrir exceções que possam reorganizar disputas já sensíveis dentro da sigla. Dirigentes emedebistas enxergam na pressão do PSD um risco para o próprio equilíbrio interno do partido, que teme transformar uma acomodação externa em um incêndio doméstico.

O impasse, agora ameaça a engenharia mais ampla da aliança. Interlocutores próximos às negociações admitem que, mantida a intransigência dos dois lados, a tal composição cruzada pode não resistir ao teste. E se vier a ruir, não será por falta de aviso: os sinais de fissura já são evidentes para quem observa a paisagem por trás das cortinas.

O governo, que preferia lidar com obras, encontra-se lidando com egos. Falta um coordenador político não por ausência de nomes, mas por excesso de cautela. Em política, vacância estratégica tem o mesmo efeito de porta aberta em noite de chuva: entra o que não se quer. Seja qual for o desfecho, a fusão que parecia garantida agora parece apenas provável.

E, no Piauí, o provável sempre foi um primo distante do definitivo.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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