A filiação de Wilson Martins ao PSD, embora celebrada no tabuleiro nacional, ecoou no Piauí como um movimento dissonante dentro da sinfonia que o Palácio de Karnak tenta reger para 2026. A manobra, articulada em Brasília, foi lida por setores do PT como um passo fora da cadência estabelecida pelo governador Rafael Fonteles: a de consolidar candidaturas em poucas siglas, reforçando musculatura eleitoral e evitando a fragmentação de votos.
O risco é claro: ao concentrar as disputas em legendas como PT, PSD e MDB, a base cria internamente uma arena de gladiadores. O objetivo é nobre, alcançar nove das dez vagas na Câmara Federal e ampliar a bancada do PT na Assembleia Legislativa. Mas, ao reunir tantos nomes de peso em poucas estruturas, a aliança corre o risco de intensificar suas próprias fissuras. Não é exagero dizer que a batalha principal de 2026 pode ser travada dentro da própria base, e não apenas contra a oposição.
Enquanto isso, o senador Ciro Nogueira, em silêncio calculado, segue a lição mais antiga da política: cultivar as bases municipais. Ao aparecer ao lado de prefeitos ligados ao PT, como Fabiano Lira, de Brejo do Piauí, o líder progressista não apenas inaugura obras, mas semeia dúvidas. Quem se aproxima de Ciro envia recados sutis ao governo: lealdade não é um bem inegociável. O gesto reforça o alerta feito por Fábio Novo, de que não há espaço para duplicidade de apoios dentro da coalizão.
O governador Rafael Fonteles, em público, insiste na narrativa da coesão. Fala em base “forte e coesa”, admite divergências internas, mas minimiza os sinais de descontentamento. É a postura natural de quem precisa sustentar a imagem de estabilidade. Mas a realidade impõe desafios: manter unida uma frente ampla, composta por projetos individuais de poder, é uma arte de equilíbrio que exige mais que declarações de otimismo.
A eleição de 2026 já se anuncia como um teste de estresse para a base governista. O desenho de candidaturas concentradas pode ser o caminho para vitórias expressivas, mas também pode se transformar em campo de batalha fratricida. No tabuleiro, Rafael Fonteles tem a vantagem da caneta e da gestão; Ciro Nogueira, a experiência de quem sabe operar a política no detalhe. O risco maior não vem de fora: é a implosão silenciosa, que corrói por dentro.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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