Nos corredores da política teresinense, um dado parece cada vez mais nítido: a relação entre o Executivo e o Legislativo municipal atravessa um momento de inflexão. O episódio mais recente, protagonizado pelo presidente da Câmara, Enzo Samuel (PDT), ao reagir às declarações do prefeito Silvio Mendes (União Brasil) sobre os custos do Legislativo, expôs fissuras que se acumulam em silêncio.
Ao criticar a "transferência de culpas" por parte do Executivo, Enzo trouxe à tona um ponto sensível: a sensação de que a Câmara, que desde o início do mandato deu aval às primeiras medidas da gestão, começa a se sentir desgastada com a narrativa construída pelo Palácio da Cidade. A lembrança da aprovação, ainda em 2024, da reforma administrativa de Mendes, bem como da sanção do orçamento elaborado por sua própria equipe, é uma senha política, a Casa não apenas colaborou, mas assumiu responsabilidades ao lado do prefeito.
No subtexto da fala do presidente da Câmara está a defesa da autonomia do Legislativo. Quando afirma que a Casa “jamais será submissa”, Enzo sinaliza um limite claro ao Executivo. Não se trata, por ora, de rompimento, mas de um recado público de que a paciência dos vereadores pode se esgotar diante da insistência em responsabilizar a Câmara pelos problemas que atingem a cidade.
Esse incômodo não se restringe a um partido. Na mesma linha, o presidente municipal do PT, vereador João Pereira, também marcou posição, ainda que em tom distinto. Ao falar em dar “mais um crédito” ao prefeito, o petista reforçou uma estratégia conhecida: manter a porta aberta ao diálogo, mas condicionada à entrega de resultados concretos. A fala de Pereira aponta para três frentes críticas da capital, limpeza, saúde e trasporte público, áreas em que a gestão de Mendes acumula cobranças.
O que se percebe é que, mais do que oposição ou situação, a Câmara começa a se movimentar como um poder que reivindica reconhecimento. As palavras de Enzo e João revelam uma convergência: a de que a responsabilidade pela condução da cidade não pode ser diluída em discursos, mas exige ação e gestão.
O prefeito, por sua vez, mantém o estilo direto que o consagrou em outras passagens da vida pública. Mas a insistência em tensionar com o Legislativo pode abrir uma frente de desgaste desnecessária. É sabido que, em Teresina, nenhum prefeito avança sem preservar uma base de apoio minimamente coesa na Câmara.
O risco, portanto, não é apenas político, mas também administrativo. Uma Câmara ressentida tende a ser menos paciente diante das urgências da cidade, e os próximos meses serão decisivos para saber se esse fio de confiança ainda pode ser reatado ou se a relação caminhará para uma fratura mais evidente.
Nos bastidores, há quem diga que o prefeito se mantém confiante na força de sua liderança pessoal. Mas a política, sobretudo na capital, é feita também de arranjos e entendimentos. E, nesse campo, cada palavra dita em plenário ecoa mais alto do que aparenta.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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