A aprovação da PEC da Blindagem pelos deputados federais do Piauí deveria ser um ato de unidade do PT. Não foi. Pelo contrário: revelou fissuras profundas entre a ala “raiz” e os pragmáticos da bancada federal, expondo fragilidades que há tempos circulam nos corredores do poder petista.
Todos os deputados piauienses votaram a favor da proposta, movimento que deixou o presidente estadual do partido, Fábio Novo, visivelmente surpreso. Mais do que surpreso, Novo pareceu desarmado, sem controle sobre sua própria bancada. Se o objetivo era coordenar o partido, o resultado foi exatamente o oposto: uma ala federal que ignora orientações e decisões internas, privilegiando cálculo político individual.
O episódio ganhou contornos ainda mais delicados com a manifestação do deputado Merlong Solano, que recorreu às redes sociais e à mídia para apresentar uma série de pedidos de desculpas pelo voto. Um gesto que revela mais fragilidade do que firmeza, sinalizando que, no PT piauiense, a comunicação interna não funciona e a reação às críticas é sempre tardia e constrangida.
No mesmo ambiente digital, a ala “raiz” do partido também se manifestou. Nazareno Fonteles, conhecido por sua postura calma e por seguir valores cristãos conservadores, declarou estar decepcionado com Solano, mas afirmou perdoá-lo. Curiosamente, a repercussão de seu comentário levantou especulações sobre possíveis reflexos familiares e internos no partido, já que a mensagem foi apagada pouco depois — gesto que muitas vezes indica um equilíbrio tênue entre a crítica e a preservação da imagem interna.
Em Teresina, o cenário se repetiu de forma quase simbólica: manifestações contra deputados petistas ao lado dos próprios deputados do PT. A imagem é clara: o partido que há décadas governa o estado enfrenta dificuldades para manter qualquer coesão, mesmo quando o tema é estruturante e estratégico.
A leitura é simples, mas dolorosa para o partido: o PT piauiense está preso entre a necessidade de manter unidade e a liberdade individual de seus parlamentares. Cada voto, cada justificativa pública, cada gesto apagado nas redes revela que a coesão é mais aparente do que real.
E o que isso significa para o futuro? Em termos eleitorais, o desgaste interno pode custar caro. A narrativa de unidade, fundamental para apresentar o PT como força sólida, está fragilizada. Em um ambiente de oposição em ascensão e atenção nacional, o risco de perder terreno em alianças e no eleitorado tradicional é real.
No fim, a PEC da Blindagem não foi apenas um teste legislativo: foi uma prova de que, no PT do Piauí, o poder no papel não garante disciplina nos corredores, e que cada ala do partido joga com interesses próprios, muitas vezes à custa da narrativa de unidade que tenta vender ao público.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
Ver todos os comentários | 0 |