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Colunista Caroline Vitorino
Análise política
GP1

Quem manda no PT escolhe o vice. E quem manda no PT?

Mais do que uma definição de chapa, a escolha entre Bandeira e Vinícius revela quem tem o poder real.

O ano de 2026 começou com as rixas antigas novamente à mesa no grupo governista do Piauí. Embora publicamente neguem qualquer conflito, os movimentos recentes do governador Rafael Fonteles e do ministro Wellington Dias expõem uma disputa silenciosa em torno da escolha do vice na chapa governista.

Na segunda-feira (05), o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias (PT), foi questionado sobre a possibilidade de o filho, o médico Vinícius Dias, integrar a chapa governista como vice nas eleições de 2026. A resposta foi evasiva. Com um sorriso calculado, o ministro preferiu destacar que o filho estava de plantão médico e ressaltou sua formação técnica, informando que Vinícius concluiu em 2025 a especialização em gestão de UTI em urgência e emergência. Politicamente, foi uma negativa sem negar. Um clássico.

Foto: Lucas Dias/GP1Washington Bandeira e Vinícius Dias disputam mais do que a vaga de vice
Washington Bandeira e Vinícius Dias disputam mais do que a vaga de vice

No dia seguinte (06), Wellington voltou ao tema por outro ângulo ao comentar a divisão interna do PT sobre a escolha do vice do governador Rafael Fonteles. Defendeu que a decisão será fruto de “muito diálogo”, tanto dentro do partido quanto com os aliados da base governista. O discurso conciliador, no entanto, durou pouco. Ainda no dia 6, Rafael Fonteles usou as redes sociais para anunciar a indicação do ex-secretário de Educação Washington Bandeira como seu pré-candidato a vice, decisão que, segundo ele, foi tomada após conversas com lideranças políticas, sociais e partidárias. Na prática, o governador marcou posição.

A tensão velada ficou mais explícita na quarta-feira,(07), durante a apresentação do balanço da segurança pública. Ao destacar que o Piauí alcançou indicadores inéditos, superiores a qualquer resultado dos últimos 20 anos, Fonteles fez um registro aparentemente técnico, mas politicamente ruidoso. Afinal, há cerca de duas décadas, quem ocupava o Palácio de Karnak era o próprio Wellington Dias. O recado foi sutil, porém claro.

Poucos minutos depois, Washington Bandeira reforçou sua condição de pré-candidato ao afirmar que a população piauiense “não dá bandeira” e que seu nome, rosto e voz são conhecidos. A fala tem contexto.

Em contraste, Vinícius Dias ainda enfrenta um problema básico de política: reconhecimento público. Em um evento recente, com diversas autoridades, um assessor de um veterano da política piauiense perguntou, sem ironia, quem era “o garoto que estava entrando nas fotos” - se referindo a Vinícius. A cena circulou nos bastidores como síntese do desafio do jovem médico, que tem menos de um ano para se tornar minimamente conhecido do eleitorado.

Mesmo assim, Vinícius iniciou movimentação. Nos últimos dias, passou a cumprir agenda no interior do estado, sem a presença do pai, numa tentativa clara de construir identidade própria. Esteve, por exemplo, na festa de Santos Reis, em Boa Hora, participando do reisado local ao lado da vice-prefeita Mauricélia Sousa, que articulou sua presença junto a lideranças da região. A leitura nos bastidores é direta: trata-se de uma pré-campanha em andamento, ainda que não declarada.

Publicamente, Fonteles e Wellington insistem que não há disputa. Nos bastidores, as forças estão sendo medidas. Fontes próximas ao governador afirmam que ele não admite rediscutir a vaga de vice e que teria sido taxativo ao dizer que nada - e nem ninguém - mudaria sua decisão.

O que se vê, portanto, não é um conflito aberto, mas uma disputa silenciosa entre projeto político, lealdades antigas e a tentativa de inserir um novo sobrenome no centro da chapa. No PT do Piauí, ninguém está em guerra declarada. Mas ninguém, absolutamente ninguém, está apenas observando.

No final, Rafael afirmou que a decisão vai para a convenção partidária. No entanto, isso não significa, necessariamente, que a definição de fato chegue a esse estágio. A decisão pode não chegar à convenção porque, na prática, ela costuma ser resolvida antes, nos bastidores. A convenção existe mais como rito formal do que como espaço real de disputa.

Quando um dos lados percebe que não tem votos suficientes para vencer na convenção, a tendência é recuar antes, negociar uma saída ou aceitar a composição imposta. Isso evita derrota formal, constrangimento político e desgaste público. Assim, mesmo que o discurso seja o de “decidir na convenção”, a definição frequentemente acontece antes, por cálculo político, e a convenção apenas homologa o que já foi acertado.

O PT não terá que escolher apenas um nome, mas um comando. Quem sair vencedor não levará somente a vaga de vice, e sim a chancela interna de quem, de fato, dará as cartas no partido pelos próximos quatro anos.

Ao fim desse processo, ficará claro, sem rodeios, quem realmente manda no PT.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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