Apesar do esforço da bancada petista em sustentar a narrativa de que o ambiente está pacificado na definição da chapa governista, a calmaria parece existir apenas no discurso oficial. Nos bastidores, a indicação do nome petista Washington Bandeira como favorito à vaga de vice-governador não foi digerida com a mesma serenidade por todos os aliados. Há sorrisos públicos, mas o ranger de dentes é audível para quem se dispõe a escutar.
O desconforto ganhou voz por meio do deputado estadual Felipe Sampaio (MDB) que, embora integrante da base governista, decidiu fazer o que seu pai, o vice-governador Themístocles Filho, optou por não fazer: falar. Em entrevistas recentes, Felipe deixou claro que o MDB não se sente contemplado pela decisão, tomada ainda em 2024, segundo o núcleo petista, de reservar a vice para o PT. A crítica é cuidadosamente embalada, mas o recado é inequívoco: o partido não engoliu a fatura sem contestação.
Themístocles, por sua vez, escolheu o silêncio como estratégia. Desde que se tornou pública sua exclusão da disputa pela vice na chapa de Rafael Fonteles, o vice-governador praticamente desapareceu do debate político. Entrevistas rarearam, aparições públicas tornaram-se episódicas e sua presença ao lado do governador é tão escassa que chega a parecer inexistente. O silêncio, nesse caso, fala alto e revela mais do que qualquer declaração protocolar.
Mas afinal, o que exatamente incomoda o MDB? O próprio Felipe Sampaio oferece a pista. Ao mesmo tempo em que reconhece o prestígio de Themístocles e elogia sua trajetória, o partido ensaia um movimento ambíguo: cutuca o governo, mas apressa-se em suavizar o gesto. Não por acaso, o líder do MDB na Assembleia Legislativa afirmou que a prioridade da legenda é garantir a Themístocles uma cadeira confortável no Legislativo em 2026, sinalizando uma compensação política.
Paralelamente, o MDB articula para que Felipe Sampaio figure como primeiro suplente do senador Marcelo Castro nas próximas eleições. Segundo lideranças do partido, as conversas envolvem diretamente o governador, numa tentativa de rearranjar forças e evitar rupturas mais profundas. Trata-se menos de rebeldia e mais de sobrevivência em um tabuleiro onde o protagonismo, mais uma vez, gravita em torno do PT.
No fundo, a insatisfação emana menos de um episódio específico e mais de uma dinâmica conhecida: o predomínio petista dentro de um governo petista. Nada exatamente novo. Na política, como na vida familiar, alianças existem, mas preferências também. E todo pai, no fim das contas, sempre tem um filho favorito.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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