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Colunista José Trabulo Júnior
José Trabulo Júnior.
GP1

Erro das Bandeiras

Governos devem adequar o discurso e as campanhas ao estado real da sociedade.

A recente campanha de “orgulho piauiense”, marcada pela distribuição maciça de bandeiras e ações publicitárias de alto custo, é um exemplo clássico de falha de estratégia comunicacional em governos sob pressão social. O erro não está na ideia de exaltar a identidade do povo, mas na falta de sensibilidade política e técnica para perceber que o ambiente de percepção pública não comporta celebrações estéticas em meio à precariedade estrutural.

Em comunicação pública, o princípio básico é o da coerência contextual. Governos devem adequar o discurso e as campanhas ao estado real da sociedade. Quando a população enfrenta insegurança alimentar, falta de água, baixa empregabilidade e deficiências em serviços básicos, o investimento em publicidade simbólica é interpretado como um ato de alienação institucional. A estética se sobrepõe à empatia, e o resultado é a erosão da credibilidade.

O caso da “bandeira para todo lado” demonstra uma inversão de prioridades. O investimento milionário em mastros e material promocional, num Estado com altos índices de pobreza e infraestrutura deficiente, transforma a comunicação em instrumento de distorção da realidade. Trata-se de uma tentativa de construir uma percepção positiva sem enfrentar os problemas que sustentam a imagem negativa, um erro conceitual conhecido em marketing público como gestão cosmética de crise.

A comunicação institucional deveria funcionar como extensão da governança, e não como substituto dela. Quando o marketing é utilizado para encobrir falhas administrativas, perde-se o caráter republicano da comunicação pública e entra-se no campo da autopromoção política. Isso viola os princípios de impessoalidade e transparência que regem o uso dos recursos públicos destinados à publicidade governamental.

Outro aspecto técnico relevante é o risco de contaminação eleitoral. Campanhas de identidade, quando coincidem com nomes, símbolos ou potenciais candidatos vinculados ao governo, configuram o que a literatura chama de comunicação subliminar de posicionamento. É um uso indireto da máquina de propaganda estatal para preparar terreno político, mascarado sob o discurso da cultura ou da celebração cívica.

A dissonância entre o conteúdo da campanha e a realidade vivida pelo cidadão amplia o chamado gap de legitimidade. Na prática, o público percebe o contraste entre o que é mostrado na propaganda e o que experimenta no cotidiano. Essa desconexão produz descrédito e sentimento de indignação. A publicidade, em vez de fortalecer a imagem institucional, passa a simbolizar o próprio fracasso do governo em compreender as prioridades da sociedade.

Do ponto de vista econômico, há um custo reputacional e fiscal elevado. Cada real investido em publicidade superficial durante uma crise é interpretado como um real subtraído de políticas essenciais. Esse efeito é devastador, pois reforça a percepção de desperdício e de insensibilidade social. O cidadão associa imediatamente o gasto em marketing ao desvio de foco da gestão.

O caso em análise também ilustra a ausência de planejamento integrado. Toda comunicação governamental deve ser precedida por um diagnóstico de imagem e de humor social. Se a pesquisa qualitativa indicar insatisfação com serviços públicos, o foco da comunicação deve migrar para transparência e prestação de contas, não para campanhas de exaltação. Ignorar essa etapa é falha técnica grave em public management communication.

Em termos de imagem, o efeito colateral é duplo: a rejeição ao conteúdo da campanha e a perda de confiança no emissor. O governo passa a ser percebido não apenas como incompetente na gestão, mas também como desonesto na comunicação. Isso cria uma crise reputacional cumulativa, de difícil reversão, porque atinge o valor intangível mais importante da administração pública: a credibilidade.

Em síntese, o erro do governo ao apostar em bandeiras e marketing simbólico num Estado assolado por carências básicas é mais do que um equívoco estético, é um erro estratégico, técnico e ético. Comunicação pública não deve servir para mascarar o desconforto coletivo, mas para traduzir resultados concretos e orientar políticas de transparência. Quando o marketing tenta substituir a gestão, o que tremula não é a bandeira do orgulho, é a do descompasso entre governo e realidade.

José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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