Eu já acompanhei dezenas de campanhas e posso afirmar com convicção: na comunicação política atual, interagir é tão importante quanto postar.
A maioria dos políticos ainda acredita que a “comunicação” termina quando a arte ou o vídeo vai ao ar. Mas a verdade é que a comunicação só começa ali. A grande força das redes sociais não está apenas no que é publicado, mas no que acontece depois da publicação: nos comentários, nas mensagens diretas, nas reações espontâneas da base.
E é aqui que entra um ponto fundamental: o político que responde, escuta e participa da conversa constrói vínculo. E vínculo é pré-requisito para o voto.
Vamos a um exemplo prático: imagine que você publica um vídeo sobre um novo projeto de lei que pretende ampliar o acesso a medicamentos gratuitos na cidade. Um morador comenta: “Isso é ótimo, mas a farmácia popular aqui do bairro X está há 3 meses sem dipirona.”
A maioria dos perfis simplesmente ignora esse comentário. Mas o perfil que entende de estratégia faz o oposto: responde, agradece, pergunta detalhes e se compromete a verificar. Mesmo que o problema não esteja diretamente ligado ao mandato, a resposta cria o efeito de proximidade, atenção e cuidado.
Na prática, o que esse eleitor vai sentir? “Ele me ouviu.” E esse sentimento é poderosíssimo. É o que transforma um eleitor passivo em defensor ativo da sua imagem.
Outro exemplo: você faz uma publicação criticando o aumento da tarifa do transporte público. Nos comentários, dezenas de pessoas apoiam a crítica. Responder esses comentários com frases como “É um absurdo mesmo, Maria. Obrigado por estar aqui.” ou “Isso precisa mudar, João. Seguimos juntos.” tem um efeito multiplicador.
Por quê? Porque o algoritmo percebe que aquela publicação está ativa, com conversa, e aumenta o alcance orgânico. E mais: os outros eleitores que passam pelo post veem um político presente, acessível, que responde com humanidade. Isso é construção de marca política.
A maior parte dos políticos ainda trata os comentários como um espaço de vaidade, e não como um território estratégico. Em muitas campanhas que acompanhei, bastou criar o hábito de responder comentários com consistência para que a taxa de engajamento dobrasse. E isso reflete diretamente nos resultados de alcance, percepção pública e até intenção de voto.
Sem contar que, ao manter esse diálogo, você coleta percepções valiosas: críticas que se repetem, dúvidas recorrentes, elogios sinceros e, principalmente, ideias de conteúdo que vêm diretamente da base. Ou seja, a própria audiência passa a te dizer sobre o que você deve falar.
Responda um comentário com atenção e veja o que acontece: a pessoa compartilha, marca amigos, te defende em discussões e volta a comentar nos próximos posts. É assim que se formam microcomunidades digitais, grupos de pessoas que não apenas te seguem, mas atuam como defensores da sua imagem.
É por isso que sempre digo: quem só publica, está na vitrine. Quem interage, está no território. E na política, território é tudo.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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