Conheci J.R. Guzzo primeiro como leitor. Antes de qualquer contato pessoal, suas palavras já me alcançavam como um choque de realidade. Guzzo não escrevia para agradar, escrevia para dizer o que precisava ser dito. E essa é uma das maiores lições que ele deixou: a verdade não pede licença e não pode ser condicionada ao gosto de quem está no poder.
Sua trajetória atravessou mais de cinco décadas da imprensa brasileira. Passou por redações como as da Veja, onde chegou a diretor de redação, pelo Estadão como colunista e pela Revista Oeste, da qual foi um dos fundadores. Em todas as funções, manteve o mesmo princípio: jornalismo não é propaganda, não é serviço ao governo, é vigilância permanente.
No país do “deixa pra lá” e do “não mexe com isso”, Guzzo escolheu mexer. Pagou o preço, como todo jornalista que não se curva. Foi acusado, atacado, boicotado. E nunca recuou. Sua escrita era simples, mas não simplória; direta, mas não rasa. Entendia que jornalismo não é para brilhar o ego do repórter, é para servir ao público.
No jornalismo político, Guzzo deixou uma marca que poucos conseguiram igualar. Ele esteve na cobertura e na análise dos grandes momentos da história recente do Brasil. No período do impeachment de Collor, escreveu que a crise não era apenas do presidente, mas de um sistema político inteiro que havia se acomodado à corrupção. Na era do Mensalão, destacou que o escândalo não era um desvio pontual, mas a prova de que o governo havia institucionalizado o suborno . Na Lava Jato, elogiou o trabalho de investigação, mas alertou para as tentativas de esvaziar as punições e proteger políticos.
Era igualmente duro ao falar do Judiciário. Questionou decisões do Supremo Tribunal Federal que, segundo ele, ignoravam a Constituição em nome de alianças políticas ou de conveniências momentâneas. Também foi um crítico consistente da imprensa que se deixava seduzir por narrativas oficiais, lembrando que jornalistas não podem agir como assessores de imprensa de governos.
Sua linguagem era clara, acessível, sem esconder os fatos atrás de jargões ou floreios. Em uma coluna, escreveu que o Brasil não sofre de falta de leis, mas de excesso de impunidade, frase que ecoou muito além do meio jornalístico. Em outra, afirmou que “um país que precisa pedir autorização para dizer o óbvio já deixou de ser livre”, resumindo em poucas palavras o perigo da autocensura.
Guzzo não se deixava intimidar por pressões ou rótulos. Sua coerência lhe garantiu o respeito até de adversários ideológicos.
Hoje, ao observar o cenário da informação, vejo que sua ausência é mais que uma perda pessoal para quem o lia. É uma perda para a democracia brasileira. Ele nos lembrava que liberdade de expressão não é concessão, é direito, e que um jornalismo de verdade exige coragem. Coragem para enfrentar o poder, para expor contradições e para escrever o que é impopular quando é o certo.
A lição que fica para mim é simples e, ao mesmo tempo, desafiadora: não basta informar, é preciso ter coragem moral para sustentar a verdade, mesmo quando ela incomoda. Guzzo viveu assim. Cabe a nós decidir se vamos apenas lamentar sua ausência ou honrar sua postura.
Se Guzzo estivesse aqui hoje, talvez repetisse o que sempre disse: não há democracia sem jornalistas dispostos a irritar quem manda. E eu digo mais, o Brasil precisa de mais Guzzo, não de menos. O silêncio não constrói liberdade. A coragem, sim.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e palestrante, atualmente abordando o tema: “Narciso, a cultura do espelho”, título de seu novo livro, com lançamento previsto para outubro de 2025. Possui MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing; pós-graduação em Gestão, Governança e Setor Público; pós-graduação em Novas Tecnologias, Transformação Digital e Agilidade; pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia; e pós-graduação em Comunicação Eleitoral e Marketing Político. Escreve às segundas-feiras no Portal GP1.
E-mail: [email protected].
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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