Poucos termos ganharam tanto espaço no debate contemporâneo quanto a palavra “narrativa”. Ela aparece em discursos políticos, nas redes sociais, nas campanhas publicitárias e até nos tribunais. Mas o uso frequente não significa necessariamente compreensão. Em muitos casos, “narrativa” virou sinônimo de manipulação, de desvio dos fatos, de versão conveniente. Essa leitura, no entanto, é incompleta. A narrativa não é o oposto da verdade. Ela é a forma como damos sentido aos fatos.
Narrar é organizar. É selecionar o que importa, atribuir valor, estabelecer uma lógica entre eventos dispersos. Toda sociedade vive cercada de dados, informações, estatísticas. Mas o que transforma esses elementos em algo compreensível para o público é a estrutura narrativa. Não se trata de inventar. Trata-se de conectar.
Na política, esse processo é decisivo. Um mesmo fato pode ser apresentado de formas completamente distintas, dependendo do enquadramento. Um reajuste fiscal, por exemplo, pode ser comunicado como responsabilidade administrativa ou como corte insensível. Um programa social pode ser descrito como alívio emergencial ou como política eleitoreira. O conteúdo não muda. O contexto narrativo, sim.
Essa disputa não é nova. Mas ganhou força com a fragmentação da informação e a ascensão das redes sociais. Se antes a narrativa dominante era construída por grandes veículos de comunicação, hoje ela pode surgir de qualquer lugar. Grupos organizados, influencers, líderes comunitários e até perfis anônimos têm capacidade de moldar a percepção pública. A velocidade com que essas narrativas se espalham supera, muitas vezes, a checagem ou o esclarecimento institucional.
A política contemporânea é profundamente afetada por esse fenômeno. Governos, partidos e movimentos disputam não apenas votos ou políticas públicas, mas interpretações. É comum ver diagnósticos completamente opostos sobre uma mesma realidade. Não por ignorância ou má-fé, mas porque os sentidos atribuídos a essa realidade estão em constante disputa simbólica.
Essa dinâmica fica evidente em episódios recentes do debate público. Durante a pandemia, por exemplo, houve não apenas uma guerra sanitária, mas uma guerra de narrativas. Adoção ou rejeição de vacinas, medidas de isolamento, fechamento de comércios, uso de medicamentos, tudo foi atravessado por construções simbólicas que extrapolavam o campo técnico. Cientistas, autoridades e formadores de opinião disputaram não apenas argumentos, mas também versões emocionalmente potentes.
A imprensa também participa dessa disputa. Ao escolher manchetes, organizar reportagens, dar espaço a determinadas fontes e omitir outras, os veículos inevitavelmente participam da construção narrativa. Isso não significa, necessariamente, enviesamento. Significa que toda mediação é, de algum modo, seletiva. O desafio do jornalismo ético é reconhecer esse papel e exercê-lo com responsabilidade, buscando equilíbrio, pluralidade e rigor factual.
Narrativas são inevitáveis. Elas não são em si um problema. Pelo contrário, são parte essencial da democracia. Sociedades precisam de histórias que expliquem o presente, projetem o futuro e deem sentido ao passado. O risco surge quando essas histórias se desconectam dos fatos ou quando se tornam ferramentas de dominação, blindando governos, silenciando vozes ou distorcendo realidades.
Em um cenário de saturação informativa, a qualidade da narrativa passa a ser tão importante quanto a veracidade dos dados. Quem comunica melhor, com mais clareza, emoção e coerência, tende a vencer o debate. Mas a vitória simbólica nem sempre coincide com a vitória ética.
Por isso, compreender o papel das narrativas é mais do que uma exigência técnica. É um exercício de cidadania crítica. Não basta rejeitar versões que nos desagradam. É preciso perguntar sempre: o que está sendo contado, como está sendo contado, e a quem essa história serve.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e palestrante, abordando atualmente o tema: “Narciso, a cultura do espelho”, título de seu novo livro, com lançamento previsto para outubro de 2025. Possui MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing; pós-graduação em Gestão, Governança e Setor Público; pós-graduação em Novas Tecnologias, Transformação Digital e Agilidade; pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia; e pós-graduação em Comunicação Eleitoral e Marketing Político. Escreve às segundas-feiras no Portal GP1.
CEO da X Conexões Consultoria - Transformando Ideias em Resultados - E-mail: [email protected].
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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