A transformação do setor de comunicação não deve ser interpretada como uma tragédia democrática, como insistem alguns dos antigos protagonistas desse sistema, mas como aquilo que de fato é: uma redistribuição de poder. O que entrou em colapso não foi o direito à informação, nem a democracia em si, mas um modelo concentrado que durante décadas definiu quem podia falar, quem podia ser ouvido e quais narrativas eram legitimadas como verdade oficial.
Por muito tempo, credibilidade foi confundida com tamanho de estrutura. Grandes redações, prédios imponentes, concessões públicas e verbas publicitárias vultosas criaram a sensação de que autoridade informativa era algo automático, quase hereditário. Bastava existir há décadas para ser considerado confiável. O público era visto mais como receptor do que como interlocutor. Esse arranjo funcionou enquanto não havia alternativas reais.
A tecnologia rompeu esse pacto silencioso. A internet, as redes sociais e as plataformas digitais não apenas ampliaram o acesso à informação, mas quebraram o monopólio da mediação. O cidadão deixou de depender de poucos veículos para entender o mundo. Passou a comparar versões, confrontar discursos, buscar fontes diversas e, sobretudo, produzir conteúdo. Isso alterou a lógica do poder informacional de forma irreversível.
Nesse novo cenário, a credibilidade deixou de ser um ativo estrutural e passou a ser um ativo relacional. Não se sustenta mais pela marca estampada no topo da página, mas pela coerência entre discurso e prática, pela transparência nos métodos e pela confiança construída com o público ao longo do tempo. Quem erra precisa corrigir. Quem distorce perde audiência. Quem manipula perde relevância. O julgamento deixou de ser interno e passou a ser coletivo.
Essa mudança incomoda porque expõe algo que antes ficava protegido pelas paredes das redações. A imprensa tradicional nunca foi neutra. Sempre operou dentro de interesses econômicos, políticos e ideológicos. A diferença é que, agora, esses alinhamentos são mais facilmente identificados, questionados e confrontados. A aura do quarto poder se desfaz quando o público percebe que não existe poder sem responsabilidade.
Tratar essa transição como ameaça à democracia é uma inversão perigosa. Democracia pressupõe pluralidade, debate e contestação. Um ambiente informacional diversificado, ainda que mais caótico, é mais democrático do que um sistema centralizado onde poucos falam e muitos apenas escutam. O ruído existe, os excessos também, mas eles não justificam a tentativa de restaurar um modelo baseado na tutela do pensamento alheio.
O maior erro dos veículos que perdem relevância hoje é insistir em enxergar o público como massa passiva. Essa visão paternalista, que pressupõe um cidadão incapaz de interpretar, escolher e decidir por si mesmo, é incompatível com o tempo presente. O leitor, o espectador e o usuário querem ser respeitados, não conduzidos. Querem informação, não catequese. Querem dados, contexto e honestidade intelectual.
Informação, hoje, não é imposição. É disputa. Disputa de narrativa, de atenção e, principalmente, de confiança. Quem tenta vencer essa disputa pela autoridade do passado ou pelo constrangimento moral do presente tende a fracassar. O público não rejeita a imprensa por princípio. Rejeita a arrogância, a seletividade conveniente e a recusa em admitir erros.
Sobrevivem, nesse novo ecossistema, aqueles que compreendem que relevância não se decreta. Ela é concedida diariamente pelo público. Exige humildade para ouvir, coragem para rever posições e compromisso com a verdade factual, mesmo quando ela contraria interesses próprios. A credibilidade não é mais um escudo automático. É um contrato frágil, renovado a cada publicação.
A comunicação do século 21 exige respeito à inteligência de quem está do outro lado da tela. Exige abandonar a lógica do nós sabemos, vocês aprendem e adotar a lógica do diálogo, da explicação e da responsabilidade. Quem entender isso continuará relevante. Quem insistir em falar sozinho, de cima para baixo, continuará falando, mas para cada vez menos gente.
No fim, não estamos diante do fim da informação, mas do fim de uma era em que poucos decidiam por muitos. E isso, longe de ser uma tragédia democrática, é um avanço histórico que veio para ficar.
Informação hoje não é imposição. É disputa. E só permanece relevante quem respeita a inteligência de quem está do outro lado.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
E-mail: [email protected]
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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