A dor lombar deixou de ser um problema restrito a adultos mais velhos e passou a atingir cada vez mais jovens no Brasil. Dados recentes do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram um crescimento expressivo nos atendimentos ambulatoriais e hospitalares por dor nas costas entre adolescentes e adultos jovens nos últimos anos.
Entre 2019 e 2024, os registros de atendimento por dor lombar aumentaram de forma significativa, evidenciando um cenário preocupante. Atualmente, estima-se que cerca de 10% da população mundial esteja convivendo com dor nas costas, sendo a dor lombar a principal causa de incapacidade musculoesquelética no mundo.
Esse aumento não pode ser explicado apenas por fatores mecânicos simples, como postura inadequada ou tempo prolongado sentado, explicações ainda muito difundidas, mas cientificamente insuficientes.
Por que culpar apenas postura e abdômen é um erro?
Durante muitos anos, a dor lombar foi tratada a partir de um modelo estritamente biopatológico, centrado em idéias como:
● má postura;
● fraqueza do abdômen;
● desalinhamentos da coluna;
● alterações vistas em exames de imagem.
No entanto, as principais evidências científicas atuais mostram que essas variáveis isoladas não explicam a maioria dos casos de dor lombar, especialmente nos quadros crônicos.
Estudos demonstram que exames de imagem frequentemente apresentam alterações semelhantes em pessoas com e sem dor, o que reforça que dor não é sinônimo de lesão estrutural. Persistir nesse modelo reducionista não só é ineficaz, como contribui para o aumento do medo, da inatividade e da cronificação da dor.
Dor lombar é multifatorial e deve ser entendida pelo modelo biopsicossocial
A ciência moderna compreende a dor lombar dentro de um modelo biopsicossocial, que considera a interação entre fatores físicos, emocionais e sociais.
Entre os principais fatores de risco para dor lombar, destacam-se:
● estresse crônico;
● ansiedade;
● sobrecarga de trabalho;
● privação de sono;
● sedentarismo;
● medo do movimento;
● baixa educação em saúde.
Nos jovens, esses fatores ganham ainda mais relevância devido aos hábitos contemporâneos, alta pressão por produtividade, uso excessivo de telas e pouca variabilidade de movimento ao longo do dia, ou seja, a dor lombar não surge apenas do corpo, mas do contexto de vida.
Exercício é tratamento, mas não pelos motivos tradicionais
O exercício físico é reconhecido como uma das principais ferramentas de prevenção e tratamento da dor lombar, mas não porque “corrige postura” ou apenas “fortalece o abdômen”.
Seus principais benefícios incluem:
● modulação do sistema nervoso central;
● redução da sensibilidade à dor;
● diminuição do medo do movimento;
● melhora da percepção corporal;
● regulação do estresse e da ansiedade;
● aumento da autonomia e da autoconfiança.
O exercício atua no sistema como um todo, ajudando o organismo a reinterpretar o movimento como seguro, o que é essencial no tratamento da dor persistente.
O papel do fisioterapeuta no tratamento da dor lombar
O tratamento mais eficaz para dor lombar envolve diretamente o fisioterapeuta, por meio de uma abordagem ativa, individualizada e baseada em evidências científicas.
Essa abordagem inclui:
● exercícios terapêuticos específicos;
● terapia manual como recurso complementar;
● educação em dor e saúde;
● incentivo a hábitos de vida mais saudáveis;
● reinserção progressiva do paciente no movimento.
Apesar disso, o Brasil ainda enfrenta um cenário preocupante:
- não existem diretrizes clínicas nacionais sólidas de prevenção da dor lombar,
- há baixo investimento em educação em saúde,
- e subvalorização do fisioterapeuta no cuidado primário e preventivo.
Modelos centrados apenas em exames, medicamentos e repouso apresentam baixo custo-benefício, pouca efetividade a médio e longo prazo e geram alto impacto econômico e social para o sistema público de saúde.
Informação equivocada perpetua o problema
Enquanto o discurso público continuar reforçando explicações simplistas e biopatológicas, como postura e fraqueza muscular isoladas, os números tendem a continuar crescendo.
A dor lombar precisa ser tratada com ciência, contexto e educação em saúde, e não com medo, rótulos ou soluções rápidas.
A fisioterapia moderna tem papel central nessa mudança de paradigma, atuando não apenas no alívio da dor, mas na transformação da relação do indivíduo com o movimento e com o próprio corpo.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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