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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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Dor depois dos 40: por que parar de se exercitar pode piorar tudo

A fisioterapia baseada em evidências tem acumulado pesquisas sobre esse ciclo nas últimas décadas.

A ciência já mostrou que evitar o movimento por causa da dor pode alimentar um ciclo que rouba, aos poucos, a sua independência. Entenda o que está acontecendo no seu corpo e o que você pode fazer a respeito.

Se você passa dos 40, sente uma dor no joelho, na coluna ou nas articulações e decide parar de se exercitar para não piorar, saiba que você está em boa companhia. Essa é uma das decisões mais comuns e, ao mesmo tempo, uma das mais prejudiciais que uma mulher pode tomar nessa fase da vida.

Foto: DivulgaçãoMarcelle Furtado
Marcelle Furtado

Não porque a dor não seja real. Ela é. Mas porque parar de se mover, na maioria das vezes, não resolve a dor. Ela alimenta um ciclo que, com o tempo, fica cada vez mais difícil de quebrar.

A fisioterapia baseada em evidências tem acumulado pesquisas sobre esse ciclo nas últimas décadas. E o que esses estudos mostram muda completamente a forma de entender a dor e o movimento depois dos 40.

O que a ciência já mostrou

Pesquisas publicadas em periódicos como o British Journal of Sports Medicine e a revista Pain mostram que mulheres na faixa dos 40 aos 65 anos que mantêm atividade física regular, mesmo com algum desconforto musculoesquelético, apresentam significativamente menos dor crônica ao longo do tempo do que as que optam pelo repouso prolongado.

O ciclo que ninguém te contou

Quando a dor aparece, o instinto natural e quase universal é evitar o que doi. Faz sentido, certo? Mas o corpo humano não funciona exatamente assim.

Veja o que acontece quando uma mulher para de se exercitar por causa da dor:

● A musculatura ao redor da articulação dolorida perde força rapidamente.

● Com menos suporte muscular, a articulação recebe mais sobrecarga.

● O sistema nervoso, que já estava em alerta por causa da dor, fica ainda mais sensível.

● Atividades simples, como subir escadas ou levantar da cadeira, começam a doer também.

● O medo de mover aumenta. O movimento diminui ainda mais.

Esse padrão tem nome na literatura científica: ciclo medo-evitação. E ele explica por que tanta gente que pára de se exercitar por causa de uma dor localizada acaba, meses depois, com dores em vários lugares ao mesmo tempo.

Por que depois dos 40 esse ciclo é mais perigoso?

A partir dos 40 anos, o corpo já passa por um processo natural de perda de massa muscular chamado sarcopenia. Sem exercício, essa perda se acelera. E menos músculo significa menos proteção para as articulações, menos equilíbrio, mais risco de queda e menos energia para as atividades do dia a dia.

Quando a dor entra nessa equação e o movimento sai, os efeitos se somam. E o que poderia ser resolvido em semanas com o acompanhamento certo passa a durar meses ou anos.

Dor não é sinal de parar. É sinal de prestar atenção

Uma das maiores mudanças que a fisioterapia moderna trouxe foi a forma de interpretar a dor. Durante muito tempo, a mensagem era simples: se doi, descanse. Hoje, essa mensagem foi revisada.

Dor é um sinal do sistema nervoso. Ela avisa que algo precisa de atenção. Mas ela não diz, necessariamente, que você deve parar de se mover. Na maioria das causas de dor musculoesquelética, movimento controlado, progressivo e orientado é parte fundamental do tratamento.

Isso não significa ignorar a dor nem forçá-la. Significa aprender a se mover com mais inteligência, com carga adequada, com respeito ao ritmo do corpo e, quando necessário, com orientação profissional.

O que o movimento faz pelo seu corpo

Exercícios adequados, prescritos de forma progressiva, produzem efeitos que nenhum repouso produz:

● Fortalecem a musculatura que protege articulações e coluna.

● Melhoram a circulação e a nutrição das estruturas articulares.

● Reduzem a sensibilidade do sistema nervoso à dor ao longo do tempo.

● Preservam a densidade óssea, especialmente importante após os 40.

● Melhoram o humor, o sono e a disposição, que influenciam diretamente a percepção da dor.

Não é exagero dizer que o movimento bem orientado é, hoje, um dos recursos mais poderosos que existem para o controle da dor crônica. E a fisioterapia baseada em evidências é a área de saúde que mais acumula pesquisa sobre como usar esse recurso com segurança e eficácia.

5 hábitos práticos para começar a mudar hoje

1. Não associe desconforto a dano. Algum desconforto durante o movimento é normal e não significa que você está se machucando.

2. Comece devagar e aumente progressivamente. Qualquer movimento é melhor do que nenhum. Uma caminhada leve de 15 minutos já é um ponto de partida.

3. Fortalecimento é mais importante do que alongamento. Músculos fortes protegem articulações. Priorize exercícios de força com orientação.

4. Observe o padrão da sua dor. Dor que melhora com movimento leve tende a ser de origem musculoesquelética e responde bem à fisioterapia. Dor que piora com qualquer movimento merece avaliação presencial.

5. Busque acompanhamento profissional antes de desistir do movimento. Um fisioterapeuta pode identificar a causa da dor e prescrever o tipo certo de exercício para o seu caso.

Recuperar o movimento é recuperar liberdade

Existe uma frase que uso muito no consultório e que resume bem o que a ciência mostra: cada movimento que você abandona custa um pouco da sua liberdade. Cada movimento que você recupera devolve independência.

Subir escadas sem segurar no corrimão. Carregar as compras sem sentir que vai quebrar. Brincar com os netos no chão e conseguir levantar depois. Esses são os objetivos reais por trás de qualquer programa de fisioterapia bem feito.

Não é sobre ser atleta. É sobre preservar a capacidade de viver bem, com autonomia, por muito mais tempo.

Quando procurar um fisioterapeuta?

Se você sente dor há mais de quatro semanas, se a dor está limitando as atividades do dia a dia ou se já tentou descansar e não melhorou, esse é o momento de buscar avaliação presencial.

A fisioterapia não serve apenas para reabilitar lesões. Ela serve para entender o que está causando a sua dor, para te ensinar a se mover com mais segurança e para construir um caminho progressivo de volta ao movimento, com base no que a ciência já mostrou funcionar. Parar não é a resposta. Mover-se com inteligência, sim

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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