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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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Festas de fim de ano e transtornos alimentares: impactos do estresse emocional no corpo

O estresse emocional persistente pode se manifestar fisicamente de diversas formas.

As festas de fim de ano costumam ser associadas a alegria, união familiar e abundância à mesa. Em dezembro, existe quase um acordo silencioso de que exagerar faz parte do ritual. No entanto, essa lógica amplamente aceita esconde uma realidade pouco discutida: para quem convive com transtornos alimentares, esse período pode ser um dos mais difíceis do ano.

A combinação entre excesso de comida, cobranças sociais e comentários sobre corpo e peso transforma encontros afetivos em experiências marcadas por ansiedade, culpa e sofrimento. O que deveria ser celebração passa a ser vivido como vigilância.

Um período que concentra riscos

O fim de ano reúne, ao mesmo tempo, fatores que aumentam o risco de sofrimento emocional. A oferta constante de alimentos, a intensificação das comparações corporais e a naturalização de comentários invasivos criam um ambiente hostil para quem já vive uma relação fragilizada com a comida.

Não é raro que essas pessoas passem semanas se preparando emocionalmente para atravessar as festas. Antecipam falas, ensaiam respostas e tentam manter algum controle diante do medo de serem julgadas. Longe de exagero, esse comportamento reflete uma tentativa de autoproteção.

O que a ciência explica sobre esse processo

A neurociência tem mostrado que o cérebro não diferencia, de forma clara, uma ameaça física de uma ameaça social. Situações de crítica, cobrança ou exposição ativam os mesmos circuitos de defesa responsáveis pela sobrevivência.

Quando isso acontece, o organismo entra em estado de alerta: hormônios do estresse são liberados, o sistema nervoso autônomo se mantém ativado e o corpo encontra dificuldade para retornar ao equilíbrio. Quando esse estado se prolonga, como ocorre ao longo de todo o mês de dezembro, os efeitos deixam de ser apenas emocionais.

Quando o estresse aparece no corpo

O estresse emocional persistente pode se manifestar fisicamente de diversas formas. Estudos associam esse processo ao aumento de dores musculares difusas, especialmente em regiões como pescoço, ombros e coluna, além de fadiga constante e rigidez corporal.

Também há relação com a amplificação da dor, fenômeno em que o sistema nervoso se torna mais sensível, intensificando a percepção dolorosa. Além disso, alterações hormonais podem favorecer processos inflamatórios de baixo grau, piorar quadros gastrointestinais e agravar doenças crônicas já existentes.

Esses sinais não indicam fragilidade. São respostas fisiológicas a um corpo que permanece em estado de alerta por tempo prolongado.

O papel das relações nas festas

Muitas vezes, comentários sobre alimentação ou aparência surgem com a intenção de ajudar. No entanto, para quem enfrenta um transtorno alimentar, essas falas reforçam a sensação de ameaça e vigilância.

Evitar observações sobre o prato do outro, não pressionar nem fiscalizar e priorizar o encontro em si são atitudes simples, mas com grande impacto. O respeito, nesse contexto, atua como fator de proteção à saúde física e mental.

Mais do que comida

Quando se fala em transtornos alimentares, não se trata apenas do que está sendo consumido, mas da relação construída com a comida, com o corpo e com o olhar do outro. O fim de ano intensifica esses conflitos e expõe uma ferida que costuma ser silenciada.

Trazer esse tema para o debate público amplia a compreensão e ajuda a criar ambientes mais seguros. Afinal, cuidar da saúde mental também é uma forma concreta de prevenir adoecimentos físicos.

Nem todas as mesas fartas são leves. E reconhecer isso é um passo importante para encontros que não machucam.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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