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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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Dor nas costas que não passa: o problema pode estar na sua cabeça, e a fisioterapia tem a resposta

A dor lombar crônica é uma das principais causas de afastamento do trabalho no Brasil e no mundo.

Você já foi ao médico, fez raio-x, tomografia, ressonância magnética... e o laudo veio normal. Mesmo assim, a dor continua, meses, às vezes anos. Se isso soa familiar, saiba que você não está sozinho, e, mais importante: não está inventando nada.

A dor lombar crônica é uma das principais causas de afastamento do trabalho no Brasil e no mundo. E uma descoberta recente da ciência está mudando completamente a forma como os fisioterapeutas tratam esse problema.

"A dor que fica não mora só no corpo. Ela mora nas crenças, no medo e nos hábitos."

O que a pesquisa descobriu

Um estudo publicado na revista científica PAIN Reports, uma das mais respeitadas na área de dor no mundo, analisou os principais fatores que fazem a dor lombar se tornar crônica, ou seja, durar mais de três meses.

Os pesquisadores identificaram que os fatores mais ligados à cronificação da dor foram:

● Dor muito intensa no início do quadro

● Incapacidade funcional elevada, dificuldade para fazer atividades do dia a dia

● Depressão e ansiedade

● Catastrofização, o hábito de sempre pensar no pior cenário possível

● Medo de se movimentar

● Crenças negativas sobre a dor

● Histórico prévio de dor lombar

Percebeu? Nenhum desses fatores fala sobre o tamanho da hérnia, a quantidade de protrusões ou as alterações que aparecem no laudo da ressonância. A estrutura física do corpo importa, mas não é ela que decide se a dor vai ficar ou ir embora.

"A dor crônica não começa na ressonância. Ela começa no perfil e na história do paciente."

Por que o pensamento dói (de verdade)

Isso não é frescura nem força de expressão. É neurociência. O cérebro tem um sistema de alarme chamado sistema nervoso central, que processa todas as informações sobre o seu corpo antes de emitir a sensação de dor.

Quando uma pessoa tem ansiedade alta, catastrofiza a situação ou tem medo de se movimentar, esse sistema de alarme fica mais sensível, como um detector de fumaça que dispara ao menor sinal. O resultado? A dor fica mais intensa, dura mais e se espalha para mais lugares.

O nome técnico para esse fenômeno é sensibilização central. E ele explica por que tantas pessoas continuam sentindo dor mesmo depois de cirurgia, mesmo sem lesão visível, mesmo tomando todos os remédios.

Um exemplo do dia a dia

Imagine que você levantou da cadeira e sentiu uma pontada na lombar. Se seu primeiro pensamento foi: 'meu Deus, quebrei alguma coisa', o seu cérebro vai amplificar esse sinal de dor. O músculo vai contrair com medo, você vai se movimentar de forma protetora e torta, e vai evitar atividades, o que vai enfraquecer ainda mais a região.

Agora imagine que seu pensamento fosse: 'isso é tensão muscular, vou me alongar e caminhar um pouco'. O sinal de dor seria processado de forma diferente. Literalmente diferente, no cérebro.

Como a fisioterapia baseada em evidência trata isso

A fisioterapia moderna não chegou atrasada nessa conversa. Pelo contrário: os fisioterapeutas foram uns dos primeiros profissionais de saúde a incorporar o modelo biopsicossocial de tratamento, que considera o corpo, a mente e o contexto social do paciente juntos.

Na prática, isso significa que uma boa avaliação fisioterapêutica hoje inclui:

● Questionários que identificam o risco de cronificação da dor

● Rastreamento de sinais de ansiedade, depressão e catastrofização

● Avaliação das crenças que o paciente tem sobre a própria dor

● Histórico de dor e comportamento frente à dor

Com essas informações, o fisioterapeuta consegue montar um plano de tratamento personalizado, que vai muito além de ultrassom e alongamento.

O que pode entrar no tratamento

● Exercício físico progressivo e supervisionado, que ensina o corpo a se mover sem medo

● Educação em dor, explicar ao paciente como o sistema nervoso processa a dor muda a percepção dela

● Técnicas de dessensibilização, exposição gradual a movimentos que o paciente evitava

● Trabalho com respiração e regulação do sistema nervoso autônomo

● Encaminhamento para psicologia quando necessário, trabalho em equipe

"Aliviar a dor é o começo. O objetivo real é fazer ela não voltar."

4 mudanças de hábito que você pode começar hoje

Enquanto você busca um acompanhamento profissional, que é essencial, existem atitudes que já têm respaldo científico para ajudar no controle da dor crônica.

1. Não pare de se movimentar: o repouso absoluto é um dos maiores inimigos da dor lombar. Movimentos suaves, como caminhada leve, fortalecem a musculatura, melhoram a circulação e ensinam o sistema nervoso que se mover é seguro. Comece com 10 a 15 minutos por dia e aumente gradualmente.

2. Cuide da saúde mental ativamente: ansiedade e depressão não tratadas alimentam a dor crônica. Isso não significa que a dor é psicológica, significa que mente e corpo são um sistema integrado. Psicoterapia, técnicas de mindfulness e boas noites de sono têm efeito mensurável na percepção da dor.

3. Mude a conversa com você mesmo sobre a dor: quando sentir dor, tente trocar pensamentos catastróficos por pensamentos mais realistas. Em vez de 'estou destruído', tente 'estou sentindo desconforto, mas sei que posso me mover com segurança'. Isso não é autoengano, é reprogramar o sistema de alarme do cérebro.

4. Procure um fisioterapeuta que avalie o seu perfil completo: Se o profissional só olha para o laudo da ressonância e não pergunta sobre o seu emocional, suas crenças e seu estilo de vida, o tratamento vai ser incompleto. Exija, e você merece, um cuidado integral.

Referência científica

Nieminen LK, Pyysalo LM, Kankaanpää MJ. Prognostic factors for pain chronicity in low back pain: a systematic review. PAIN Reports. 2021.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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