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Jesus Martins, a intelectual sensível e a poeta e escritora notável

Artigo do desembargador Edvaldo Pereira de Moura, que é diretor da ESMEPI e professor da UESPI.

Foto: Marcelo Cardoso/GP1 Edvaldo Moura
Edvaldo Moura

Desembargador Edvaldo Pereira de Moura,

Diretor da Escola Superior da Magistratura do Piauí (Esmepi) e professor da UESPI

Foi com imenso prazer e indescritível honra, que prefaciamos duas obras póstumas da intelectual, poeta e escritora picoense, Jesus de Souza Martins, pela generosidade de seus familiares, nossos diletos amigos. A primeira foi Shyêh, certamente, um heterônimo da autora, tão grande é a afinidade da personagem criada, com a da sua criadora. Sobre isso, não se conservou qualquer insinuação de mistério, pois a própria escritora revelou, em sua dedicatória prologal: “A Deus, que permitiu que Shyêh nascesse onde ele a plantou. Em mim’’.

A outra, Assim Como Era no Princípio, depois de lê-la e relê-la com o mesmo carinho, admiração e prazer, uma audaciosa e inteligente narração alegórica, por ela mesma qualificada, em que recria, à moda das narrativas mitológicas da antiguidade, mas com linguagem da literatura fantástica dos autores modernos, a lenda do Amor e da fertilidade humana, numa teogonia própria, em que dá, porém, à sua fábula, ao contrário da existencialidade mítica dos gregos e dos romanos, uma escatologia puramente humana e cristã.

Como ela disse nas últimas linhas de sua alegoria: “Lá no seu reino majestosamente glorioso, Deus criava o homem da poeira da terra… E lá se vinham Adão e Eva!... E os pimpolhos alados voaram para o céu entoando um canto melodioso, anunciando o advento da vida’’.

Dotado de uma inventividade incrível, com senso de humor refinado, sem nenhum preconceito com a temática bem elaborada e discreta da sensualidade, Jesus Martins trouxe, nas entranhas do seu iluminado espírito, a herança secular da inteligência e da criatividade dos Martins, uma das mais ilustres famílias, que ajudaram a fazer a história do nosso tão querido Piauí.

Jesus Martins é dona de um estilo direto, incisivo e crítico, sem deixar de ser terna, romântica e afetuosa, nos instantes certos, o que faz do seu texto um dos mais eloquentes, até agora vistos entre nós. Isso, para quem conhece bem o que se produz nestas terras do sertão piauiense, como expressão dos bens do espírito.

Vejamos uma ligeira demonstração da imponência estética e da maturidade narrativa dos  textos de Jesus Martins, encontrados no bojo desta valorosa e sensível produção intelectual:

“Atravessando o átrio real, um vulto que, por sua majestade e beleza, parecia influenciado a atrair as mais exigentes lisuras para sua excessiva beleza que realçava num traje lustroso, ajustando-se na cintura por um zóster drapeado de brilhantes, cujo cintilar refugia, mais ainda, nas ombreiras de sua túnica eu, extraordinariamente alada, simulava um gracioso remígio. Seu sorriso rubicundo intensificava o azul de seus olhos que confundiam a mais fascinada inspeção, mas de presença demonstrável a quem se atrevesse a admirá-lo.’’

“Vendo golfar a torrente daqueles embustes que avançavam em sua direção com aquelas caras de ferozes inimigos e com um só olhão na testa, com fantasmas saídas das mais escabrosas trevas, lançou uma arma ofensivamente bafejadora, sem qualquer precaução de deixar nenhuma chama sobrevivente. Os gritos dos ciclopes eram como o rugido de animais selvagens... Mas foram derrotados sem pedirem compaixão, porque da fúria de Suez não podiam esperar misericórdia, e, assim tombaram no limbo do perpétuo silêncio’’.

Efetivamente, não se pode ler esta primorosa escritora piauiense, cujo nome ficou perene como ornamento imortal da Academia de Letras da Região de Picos, de que fui presidente, sem que nos transportemos, extasiados, aos lugares a que ela deseja nos transportar, como Virgílio conduziu Dante Alighieri pelos três reinos do além-túmulo da Divina Comédia, obra estudada por Giovanni Boccaccio, escritor florentino, nascido no Século XIV e falecido, na Toscana, em 1375, indiscutivelmente, um marco de extrema importância, como pai do realismo da literatura mundial.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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