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Shyêy, obra da escritora Jesus Martins, de que fui prefaciador

O artigo do desembargador Edvaldo Pereira de Moura, que é diretor da ESMEPI e professor da UESPI.

Foto: Arquivo pessoalDesembargador Edvaldo Pereira de Moura
Desembargador Edvaldo Pereira de Moura

Edvaldo Pereira de Moura

Desembargador do TJPI, Professor da UESPI e Diretor da ESMEPI

A pedido de familiares e amigos da já falecida escritora e confrade da Academia de Letras da Região de Picos, de que fui Presidente, Jesus de Souza Martins, prefaciei duas de suas notáveis obras, intituladas Assim Como Era no Princípio e Shyêh, esta última, solilóquio ou confissão pela imponderabilidade e pela diversidade com que a autora trata tão interessante assunto.

A princípio, pode até não parecer, mas a feitura de um prefácio para esta obra de Jesus Martins foi a missão, além de comovente e honrosa, mais estranha e difícil que já recebi em minha vida. O leitor, que agora a tem em mão, com certeza também se sentirá perdido nos cipoais de encantamento e sedução, na beleza e no aturdimento fantástico desta fábula moderna, construída com todos os inimagináveis ingredientes mágicos de sua narrativa genial.

A palavra genial não se antepõe nem se pospõe vulgarmente ao que Jesus Martins consegue grafar em papel. Aqui não vai nenhum exagero: a literatura piauiense jamais produziu, em quase dois séculos de existência, algo que possa se parecer com o que veio de sua lavra. Mulher inteligente, sensibilidade e cultura admiráveis, vivendo, com a humildade e o recatamento recomendado por seu espírito iluminado, amigo, doméstico, simples e generoso no interior do Piauí, como uma joia preciosa perdida no meio dos ouropéis, a poucos dada a suprema ventura de tê-la conhecido. E foi assim que ela passou no meio de todos nós, até assomar ao seu lugar nas constelações que se eternizam no espaço celeste. Shyêh, nome que intitula este livro, não pode ser qualificado como romance, novela, conto, crônica ou ensaio. Ficaria mais à vontade quem o chamasse de solilóquio, monólogo ou confissão, pela imponderabilidade e pela diversidade com que a autora trata o assunto. Shyêh, também não é o pseudônimo ou, em última hipótese, um heterônimo seu, à moda de Fernando Pessoa. Shyêh é uma palavra emprestada e não inventada, pois ela existe no idioma chinês, como um pronome masculino, comportando uma pequena alteração diferencial: na aliteração do chinês para o português, a palavra não tem o acento circunflexo.

Afinal, quem é mesmo a Shyêh de Jesus Martins? Uma criação genial da autora, dotada de vida própria para andar, voar, percorrer toda a cosmogonia do universo e das criaturas onde o corpo e o espírito da autora não conseguiriam ir. Com qual finalidade? Ela mesma quase a define:

"Shyêh transpôs o portal da vida buscando o seu sentido e o seu valor. Aspirava com ânsia como se o ambiente não bastasse para saciá-la. A vida se resumia a um jogo tumultuado entre ‘os distintos’ e ‘os contrários’ da estrutura mental e racional humana. O idealismo, o naturalismo, o misticismo, crendices supersticiosas e pensamentos filosóficos recuaram-na. A água e o vento troçaram de sua posa importância. Avultava-lhe no espírito a devoradora morte. Morrer ignorante, sem saber por que existia e por que ia deixar de existir, era uma espécie de temor voluptuosamente assustador e desesperado. Que tempo duraria ‘sua tarefa de alta exigência’ que havia sido – para ela – uma eternidade de desventura?”

Por mais que a autora quisesse esconder a identidade fantástica de sua criatura, há em Shyêh nítidos traços genéticos de sua criadora.

Shyêh, em vários momentos, alterna certeza com incerteza, otimismo com pessimismo, segurança com insegurança. Sua filosofia existencial faz dela uma pluma, vagando livre sobre o torvelinho das especulações mais complexas e tantas vezes irrespondíveis. Mas ela parece fazer das dúvidas e das incertezas uma razão para mostrar o quanto o seu espírito é forte e definido em suas decisões.

O nome da acadêmica Jesus Martins figura, hoje, também, como uma das pedras da coroa da Academia de Letras da Região de Picos, sodalício a que tive a honra de presidir na qualidade de um dos seus criadores.

Não foi na postura de crítico ou analista deste precioso trabalho que me arrisquei como prefaciador, mas na qualidade incondicional de saudoso amigo, ex-colega e admirador da singularíssima figura de mulher distinta e encantadora que foi Jesus Martins, nossa íntima e afetuosa Duduis.

Por esta razão, desejo à pessoa que ora toma este livro às mãos, a mesma felicidade e encantamento que tive nas três vezes em que o li.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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