Em artigo publicado nesse domingo (29) no The Wall Street Journal, a colunista Mary Anastasia O’Grady, especialista em relações geopolíticas nas Américas, expôs preocupações sobre a presença e a atuação do Irã em países latino-americanos governados por líderes de esquerda.
A análise parte do contexto recente em que os Estados Unidos bombardearam três instalações nucleares iranianas, levando à prisão de 11 iranianos em oito estados norte-americanos. Com base nesses acontecimentos, O’Grady questiona: “O que Teerã fará com a plataforma de representantes e alianças militares que passou décadas construindo no Hemisfério Ocidental, agora que foi humilhada pelo poder aéreo dos EUA?”, afirmou.
A jornalista recorda ações terroristas atribuídas ao Irã na América Latina, especialmente os atentados em Buenos Aires nos anos 1990. Em 1992, um ataque suicida à embaixada de Israel matou 29 pessoas. Já em 1994, o atentado ao centro comunitário judaico AMIA, executado pelo grupo Hezbollah — apoiado por Teerã — deixou 85 mortos. O promotor argentino Alberto Nisman, que investigava o caso e pretendia apresentar provas contra o governo de Cristina Kirchner por suposto acobertamento do papel iraniano, foi encontrado morto em 2015, na véspera de seu depoimento no Congresso.
Atualmente, a Argentina sob o comando de Javier Milei retomou medidas contra o Hezbollah, classificando o grupo como organização terrorista. Entretanto, O’Grady ressalta que essa postura não se repete em outros países da região, onde o “fundamentalismo islâmico vem ganhando espaço”.
Entre os exemplos citados está o Brasil. Segundo ela, em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva permitiu a atracação de dois navios de guerra iranianos no porto do Rio de Janeiro, indicando uma reaproximação com Teerã. O texto também cita o apoio do governo brasileiro ao Irã após os recentes ataques dos EUA e de Israel, com o Itamaraty condenando os bombardeios e afirmando que houve violação da soberania iraniana.
Além do Brasil, O’Grady menciona Bolívia, Cuba e Nicarágua como aliados do Irã na região. Segundo ela, a Bolívia — mesmo após a saída de Evo Morales — mantém forte influência ideológica antiocidental e laços estreitos com Teerã.
A jornalista dedica atenção especial à Venezuela, que, segundo ela, possui uma “relação institucional profunda” com o Irã. O país de Nicolás Maduro tem produzido drones com tecnologia iraniana, como os modelos ANSU-100 e ANSU-200, exibidos em desfiles militares. Um relatório do Center for a Secure Free Society, sediado em Washington, estima que a Venezuela pode fabricar cerca de 50 drones por ano, além de contar com subcomponentes que poderiam ser utilizados em conflitos, como disputas territoriais com a Guiana. O Irã também teria fornecido lanchas rápidas com capacidade para transporte de mísseis antinavio.
O’Grady alerta ainda para a possibilidade de Teerã recorrer a agentes clandestinos na América Latina como forma de retaliar os EUA, assim como ocorreu na década de 1990. Segundo ela, esses agentes teriam sido transportados em voos diretos de Teerã a Caracas, recebendo passaportes venezuelanos para circular livremente pela região. Um ex-oficial de imigração venezuelano afirmou ao Miami Herald que cerca de 10 mil cidadãos do Oriente Médio teriam obtido documentos venezuelanos por ano, entre 2008 e 2009, número que teria crescido nos anos seguintes.
A colunista conclui o artigo afirmando que a recente operação com bombardeiros B-2, autorizada pelo presidente Donald Trump, foi um “presente para a humanidade”. No entanto, ela adverte que "ninguém deveria se surpreender se o Irã e seus representantes nas Américas se recusarem a recuar".
Caroline Vitorino
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