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Lula potencializa pacote de bondades após acusar Bolsonaro de tentar “comprar o povo” em 2022

Em ano eleitoral, governo amplia benefícios e adota agenda semelhante à criticada pelo PT em 2022.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem adotado, em ano eleitoral, uma série de medidas voltadas à ampliação de benefícios sociais, oferta de crédito e redução de tributos. A estratégia lembra o conjunto de ações que o próprio petista classificou, durante a campanha presidencial de 2022, como um "pacote de bondades" do então presidente Jair Bolsonaro (PL).

Na época, Lula e dirigentes do PT afirmavam que o adversário utilizava a máquina pública para conquistar votos e criticavam os impactos fiscais das iniciativas anunciadas às vésperas da eleição. Entre os principais alvos das críticas estava a chamada PEC dos Benefícios, apelidada de "PEC Kamikaze", que abriu espaço para despesas extraordinárias fora do teto de gastos e permitiu medidas como o aumento do Auxílio Brasil, além da criação de benefícios destinados a caminhoneiros e taxistas.

Foto: Tomaz Silva/Agência BrasilPresidente Lula
Presidente Lula

"Eles estão tentando comprar o povo", afirmou Lula à época ao criticar as medidas. O então candidato do PT também associava as medidas a uma tentativa de driblar as restrições eleitorais. Integrantes da direção petista também sustentavam que o pacote representava uma iniciativa de última hora, com elevado impacto nas contas públicas e potencial para influenciar o resultado da disputa presidencial.

Quatro anos depois, a gestão Lula reúne uma série de medidas de grande alcance popular justamente em ano eleitoral. Entre elas está a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para contribuintes com renda mensal de até R$ 5 mil, aprovada pelo Congresso em 2025 e válida a partir deste ano. A mudança tornou-se uma das principais vitrines do governo e integra um conjunto de ações que, para adversários, guarda semelhanças com o "pacote de bondades" criticado pelo próprio presidente durante a eleição de 2022.

Entre as principais iniciativas adotadas pelo governo estão programas sociais, redução na conta de energia para famílias de baixa renda, ampliação de linhas de crédito subsidiado e mudanças em programas habitacionais e de renegociação de dívidas, medidas que o Palácio do Planalto apresenta como estímulo à economia e ampliação da proteção social.

Na área social, o governo substituiu o Auxílio Gás pelo programa Gás do Povo, que pretende atender cerca de 15 milhões de famílias em todos os municípios do país. Na primeira etapa, quase R$ 1 bilhão em recursos federais foi destinado à execução da iniciativa.

Ao lançar o programa, em setembro de 2025, Lula afirmou que a iniciativa busca combater a “pobreza energética”. “Todo mundo tem direito a comer e, para isso, precisa ter gás para cozinhar", disse o petista. Outra medida adotada pelo governo foi a criação do Luz do Povo, programa voltado à redução da tarifa de energia para famílias de baixa renda. O benefício é custeado por recursos da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), fundo abastecido por encargos cobrados nas contas de luz.

Entidades do setor, no entanto, apontam que a ampliação de benefícios financiados pela CDE pode elevar os custos repassados aos demais consumidores. A Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) afirma que o crescimento dessas despesas pressiona os encargos do setor, enquanto a Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia (Abrace) avalia que, embora a medida tenha alcance social, parte da conta tende a ser absorvida por consumidores e pela indústria.

Na área de crédito, o governo também ampliou programas com condições facilitadas de financiamento. As iniciativas contemplam motoristas de aplicativo interessados na compra de veículos, caminhoneiros e recém-formados por meio do chamado Fies Empreendedor, que oferece empréstimos de até R$ 180 mil para abertura do próprio negócio.

Segundo o Ministério da Fazenda, as medidas têm como objetivo ampliar o acesso ao crédito e incentivar o empreendedorismo. Por outro lado, estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que o Fies acumulou elevados índices de inadimplência ao longo dos anos, atribuídos à ausência de garantias, à baixa renda dos beneficiários e às dificuldades de inserção no mercado de trabalho.

Na área habitacional, o governo também promoveu mudanças no Minha Casa, Minha Vida. Em abril, foi criada a Faixa 4 do programa, ampliando o acesso ao financiamento para famílias com renda mensal de até R$ 13 mil. De acordo com o Ministério das Cidades, a alteração busca facilitar o crédito imobiliário para famílias afetadas pelo cenário de juros elevados. Já dados da Fundação João Pinheiro mostram que o maior déficit habitacional do país continua concentrado entre as famílias de menor renda, público que historicamente sempre foi o foco da política habitacional.

Outra frente ampliada pelo governo foi o Desenrola. Depois da etapa voltada à renegociação de dívidas de pessoas inadimplentes, o programa ganhou novas modalidades destinadas a pequenos empreendedores e também a consumidores adimplentes, permitindo a troca de empréstimos mais caros por financiamentos com juros menores.

O Ministério da Fazenda defende que a iniciativa reduz o custo do endividamento e amplia o acesso ao crédito. Já críticos da medida avaliam que a expansão da oferta de financiamentos em ano eleitoral reforça o debate sobre o uso de políticas públicas de forte apelo popular em períodos que antecedem as eleições, cenário semelhante ao que o próprio PT contestou durante a campanha presidencial de 2022.

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