O Exército da Rússia está sendo acusado de usar mercenários africanos como combatentes descartáveis em missões de alto risco contra forças ucranianas, segundo denúncias divulgadas por jornalistas internacionais e autoridades da Ucrânia. De acordo com as acusações, esses estrangeiros estariam sendo forçados a participar de ações suicidas, avançando contra posições inimigas com explosivos presos ao próprio corpo para detonar bunkers e abrir caminho para tropas russas.
Imagens publicadas pelo jornalista alemão Julian Roepcke, do jornal Bild, mostram um homem identificado como Francis com um artefato explosivo amarrado ao peito, sendo ameaçado com um fuzil e obrigado a se deslocar por uma estrutura subterrânea. No vídeo, o homem aparece com as mãos erguidas enquanto é conduzido sob coerção armada, sugerindo que não agia de forma voluntária.
Russlands Armee nutzt ab sofort afrikanische Söldner als „открывашка“, zu Deutsch etwa „Dosenöffner“.
— Julian Röpcke???????? (@JulianRoepcke) January 9, 2026
Ihre Aufgabe ist es, mit einer um den Körper geschnallten TM-62-Mine in die gegnerische Stellung zu rennen und sich dort in die Luft zu sprengen, um den Bunker zu „öffnen“.… pic.twitter.com/kxUwFwgCjq
Segundo Roepcke, militares russos passaram a se referir a esses combatentes estrangeiros como “otkryvala”, termo em russo que pode ser traduzido como “abridor de lata”. A função atribuída a eles seria correr até posições ucranianas carregando uma mina antitanque do modelo TM-62 presa ao corpo e se explodir, permitindo o avanço de outras unidades após a destruição das defesas inimigas.
Outro vídeo citado nas denúncias mostra um grupo de africanos cantando e dançando na neve, supostamente como forma de manter o moral antes do envio à linha de frente. Em contraste, um soldado russo, falando em seu idioma para não ser compreendido pelos estrangeiros, ironiza a situação ao afirmar que há muitos combatentes “descartáveis” disponíveis e que eles “cantarão de forma diferente” quando chegarem ao combate.
As denúncias surgem em meio à revelação de que a Rússia teria recrutado, apenas no mês de dezembro, cerca de 150 estrangeiros de 25 países para lutar na guerra contra a Ucrânia. Outros 200 estariam em processo de alistamento, vindos principalmente de países do espaço pós-soviético e do chamado Sul Global, como Belarus, Tajiquistão, Uzbequistão, Cuba, Quênia e China. Entre os principais atrativos oferecidos estariam pagamento em dinheiro, facilitação para obtenção da cidadania russa e até anistia para condenados por crimes.
O chefe do Serviço de Inteligência Estrangeira da Ucrânia, Oleh Ivashchenko, afirmou que Moscou explora deliberadamente a instabilidade econômica de países mais pobres e a ausência de caminhos legais de migração, transformando essas vulnerabilidades em instrumentos de aliciamento e controle. Segundo ele, a presença de combatentes estrangeiros também é utilizada pela propaganda russa como prova de apoio internacional fora do eixo ocidental.
Relatos individuais reforçam as acusações de engano no recrutamento. Um sul-africano identificado como Dubandlela afirmou que seu filho, de 20 anos, se alistou acreditando que receberia treinamento de elite para atuar como segurança privado na Rússia. Meses depois, a família relata que o jovem foi enviado ao conflito na Ucrânia junto com outros homens que alegam ter sido vítimas de um esquema fraudulento.
Diante do cenário, o Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia alertou para a existência de programas ilegais russos de aliciamento de jovens africanos e pediu que governos e veículos de comunicação do continente atuem para impedir essas iniciativas. O porta-voz da chancelaria ucraniana, Heorhii Tykhyi, afirmou ainda que Moscou ampliou de forma significativa o número de bolsas de estudo destinadas a africanos, classificando a medida como parte de uma estratégia de recrutamento disfarçada.
Em novembro, o tema ganhou repercussão política na África do Sul após a filha do ex-presidente Jacob Zuma deixar o cargo de deputada, em meio a acusações de que teria induzido homens a viajar para a Rússia sob a promessa de treinamento legal, quando, na realidade, estariam sendo encaminhados para o conflito armado na Ucrânia.
Caroline Vitorino
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