Saúde

Covid-19: Planalto lança campanha 'O Brasil não pode parar'

No Instagram, publicação no perfil do governo federal diz que 'no mundo todo, são raros os casos de vítimas fatais do coronavírus entre jovens e adultos'.

Por  Estadão Conteúdo
- atualizado

O governo federal lançou uma campanha publicitária chamada "O Brasil não pode parar" para defender a flexibilização do isolamento social. A iniciativa é parte da estratégia montada pelo Palácio do Planalto para divulgar ações de combate ao novo coronavírus, ao lado de medidas que o presidente Jair Bolsonaro considera necessárias para a retomada econômica. Também há previsão de vídeos institucionais. Para realizar a campanha, o governo contratou, sem licitação, uma agência de publicidade por R$ 4,9 milhões.

No Instagram, uma publicação feita no perfil do governo federal diz que "no mundo todo, são raros os casos de vítimas fatais do coronavírus entre jovens e adultos". A campanha dá a senha para a defesa do fim da quarentena. "A quase totalidade dos óbitos se deu com idosos. Portanto, é preciso proteger estas pessoas e todos os integrantes dos grupos de risco, com todo cuidado, carinho e respeito. Para estes, o isolamento. Para todos os demais, distanciamento, atenção redobrada e muita responsabilidade. Vamos, com cuidado e consciência, voltar à normalidade", diz o texto.

Um vídeo divulgado na noite desta quinta-feira pelo filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), mostra cenas de trabalhadores em atividades com um narrador ao fundo repetindo o tema da campanha. "Para trabalhadores autônomos, o Brasil não pode parar. Para ambulantes, engenheiros, feirantes, arquitetos, pedreiros, advogados, professores particulares e prestadores de serviço em geral, o Brasil não pode parar", diz a narração. Ao fim, é exibida a marca do governo federal. O vídeo não foi divulgado oficialmente pelo Palácio do Planalto.

Em publicação na edição extra do Diário Oficial da União (DOU) de quinta-feira, 26, o governo federal afirma ter contratado por cerca de R$ 4,9 milhões uma agência de publicidade sem licitação. A justificativa é "disseminar informações de interesse público à sociedade, por meio de desenvolvimento de ações de comunicação". A empresa contratada é a iComunicação Integrada.

Questionada, a Secretaria de Comunicação não informou se a campanha já foi elaborada por esta empresa e se haverá outras. Nesta sexta-feira, um grupo de parlamentares disse que vai ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a campanha.

O fim do isolamento e a suspensão de restrições às circulações de pessoas contrariam recomendações médicas e do próprio Ministério da Saúde no combate à propagação da covid-19. Especialistas apontam que a quarentena é uma das formas mais eficazes de se evitar a transmissão. Isso porque o contato com alguém contaminado é a principal forma de contágio do coronavírus e o isolamento da população é uma recomendação do próprio Ministério da Saúde, que segue as orientações da Organização Mundial da Saúde. A covid-19 já infectou quase 3 mil pessoas no País, com 77 mortes. No mundo todo, o número de mortos ultrapassa 15 mil.

A campanha do governo foi lançada dois dias depois de Bolsonaro convocar a rede nacional de TV e rádio na terça-feira, para defender a suspensão de medidas adotadas na maior parte do País no combate ao coronavírus. O presidente afirmou que autoridades estaduais e municipais "devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transporte, o fechamento dos comércios e o confinamento em massa". Também defendeu a reabertura das escolas, com o argumento de que o risco maior da doença é para idosos e pessoas com outras comorbidades (outras doenças). O argumento do presidente é de que o efeito destas restrições na economia do País será a de deixar milhões de desempregados.

O pronunciamento do presidente, em que voltou a minimizar a covid-19, tratando a doença como "gripezinha" e "resfriadozinho", deixou perplexos a comunidade médica e até mesmo aliados políticos.

A OMS já alertou que há risco da doença mesmo entre os jovens. "Vocês não são invencíveis. Esse vírus pode colocar você no hospital por semanas ou até matar. Mesmo que não fique doente, as escolhas que faz sobre onde ir podem fazer a diferença sobre a vida ou a morte de outra pessoa", afirmou na semana passada o diretor-geral do órgão, Tedros Ghebreyesus.

Especialistas também apontam o risco de um jovem contaminado com coronavírus, mesmo que não desenvolva os sintomas, possa transmitir o vírus para algum parente idoso, como pais e avós.

Na noite de quinta-feira, 26, em entrevista em frente ao Palácio da Alvorada, o presidente voltou defender o fim do isolamento e disse que a reação negativa na internet envolveu cerca de 70% dos comentários. Bolsonaro afirmou, no entanto, que vai reverter essa imagem, mostrando que o povo foi "enganado" sobre a propagação do coronavírus.

Exemplo da Itália

Um dos países mais afetados pelo novo coronavírus, a Itália, inicialmente, também ignorou recomendações de isolamento da população após os primeiros casos confirmados do coronavírus. O dado mais recente do país europeu mostra que o número de mortos já ultrapassou 8 mil.

No dia 23 de fevereiro, 48 mil torcedores da Atlanta, time da cidade, foram a Milão ver a vitória por 4 a 1 contra o Valencia, da Espanha, pela Liga dos Campeões. Foi uma “bomba biológica", diria mais tarde o prefeito Giorgio Gori. No dia 27, a Confederação das Indústrias de Bergamo lançou um manifesto dizendo que tudo seguia normal. “Bergamo está funcionando”, dizia o vídeo.

Era um recado para os parceiros internacionais. Naquele momento, perto dali, na cidade de Codogno, o pesquisador Mattia, de 38 anos, seguia internado na UTI. Primeiro paciente da Itália diagnosticado com covid-19, ele estava em estado grave. Mesmo assim, as fábricas e o comércio da região permaneciam abertos - a cidade tinha então 103 casos. O próprio primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, dizia na ocasião que fechar as fronteiras do país “causaria danos econômicos irreversíveis e não era praticável”.

Todos tinham uma certeza: o país não podia parar. Naquele momento, a Itália tinha 650 infectados. Hoje são mais de 80 mil.

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