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Dono do Frango Potiguar detalha participação em duplo homicídio

João Paulo de Carvalho foi interrogado pelo delegado Luiz Guilherme, do DHPP, no dia 08 de fevereiro.

Após divulgar a íntegra da oitiva do advogado Guilherme de Carvalho Gonçalves, onde ele confessa ter atirado e matado Anael Natan Colins Souza da Silva e Luian Ribeiro de Oliveira, o GP1 divulga nesta quinta-feira (10) o depoimento completo do dono do Frango Potiguar, João Paulo de Carvalho Rodrigues, obtido com exclusividade por nossa reportagem.

João Paulo de Carvalho foi interrogado pelo delegado Luiz Guilherme, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no dia 08 de fevereiro, data em que ele foi preso junto do primo, Guilherme de Carvalho Gonçalves, e do tio, Francisco das Chagas. Os três se tornaram réus na Justiça, após serem denunciados pelo Ministério Público por duplo homicídio triplamente qualificado.

Em aproximadamente 13 minutos de depoimento, João Paulo narra detalhes de como chegou na propriedade do tio e ajudou a amarrar Anael e Luian, levando os dois no seu carro – junto com o primo – até um terreno, onde os garotos foram assassinados por Guilherme com a arma do empresário.

Confira nessa reportagem todos os detalhes do depoimento:

Ligação da tia

João Paulo conta que na madrugada de 14 de novembro ele recebeu uma ligação de sua madrinha, esposa de Francisco das Chagas e mãe de Guilherme. No telefonema, segundo o empresário, a tia estava desesperada, afirmando que haviam invadido sua casa.

Foto: Lucas Dias/GP1Dono do Frango Potiguar, João Paulo foi preso pelo DHPP
Dono do Frango Potiguar, João Paulo foi preso pelo DHPP

“Eu estava em casa, não tinha saído no dia. Não recordo ao certo o horário, mas foi por volta de 2h da manhã, não me lembro o horário certo. O telefone tocou, minha madrinha me ligou e eu atendi, ela em desespero, chorando muito, pediu meu auxílio porque haviam invadido a casa dela”, declarou João Paulo.

“Liguei para viatura da polícia”

O empresário afirma que após receber o chamado da tia decidiu ir até a casa dela. Ele explica que no caminho recebeu uma ligação da irmã e disse para ela não ir até a residência dos tios, por conta da situação. Segundo João Paulo, depois de falar com a irmã ele ligou para a polícia.

“Eu de pronto me levantei e fui [para a casa dos tios]. No caminho eu recebi a ligação da minha irmã perguntando onde eu estava e eu disse que estava me dirigindo a casa da minha madrinha, e ela disse que iria para lá também. Eu disse para ela não ir, porque tinha gente lá dentro e era perigoso. Eu desliguei o telefone, liguei para a viatura da polícia. Quando eu liguei, eles disseram que estavam em outras ocorrências e que não tinham como ir na casa da minha madrinha. Eu expliquei que tinham invadido a casa e disseram que eu tinha que ligar para o 190 e que tinham sido encaminhadas outras ocorrências para eles resolverem”, narrou.

Chegando na casa

“Quando cheguei lá eu me deparei com os dois meninos lá no chão e já tinha acontecido tudo, o Guilherme e o Francisco estavam imobilizando eles. Eles entraram na casa e os dois conseguiram imobilizá-los através de uma luta, foi isso que eu soube. Eu disse ‘rapaz e agora?’, e disseram que deram um jeito de imobilizar porque os meninos estavam ameaçando eles. Como teve a luta corporal, o que eu soube lá na hora foi que eles disseram que não iam ser presos porque eram menores de idade e porque tinham um pai que era policial”, detalhou João Paulo.

O empresário relata que pegou uma fita no seu carro para amarrar Anael e Luian. “Eu peguei essa fita que tinha no carro e com medo de alguma ameaça depois fui passando a fita no braço deles. Foi nesse momento que encaminhamos os meninos para o carro”, colocou.

Foto: Alef Leão/GP1Advogado Guilherme de Carvalho Gonçalves Sousa foi preso pelo DHPP
Advogado Guilherme de Carvalho Gonçalves Sousa foi preso pelo DHPP

O acusado sustenta que quem colocou os garotos no carro foi ele e Guilherme, sem a participação do tio, Francisco das Chagas. “Eu e o Guilherme [colocamos no carro]. O Chico [Francisco das Chagas] já não teve mais nada a ver”, frisou.

“Guilherme estava muito abalado”

Segundo João Paulo, ele e Guilherme saíram com os meninos na carroceria do carro com intuito de levá-los até a polícia. O empresário conta que o primo estava muito abalado e falou que os meninos haviam invadido a casa e agredido seu pai, Francisco das Chagas.

“A gente saiu no intuito de levar para a polícia, só que no caminho o Guilherme estava muito abalado por conta do que tinha acontecido e a gente estava conversando sobre o ocorrido. Eu perguntei o que aconteceu de fato, pois eu não estava lá. Aí ele me contou que teve essa luta, que partiram para cima do meu tio, que chegaram a derrubar ele no chão e que depois de muita briga conseguiram imobilizar os meninos e botar eles no chão. Só que a todo tempo sofrendo ameaças”, disse.

“Bora logo acabar com isso”

João Paulo diz que dentro do carro começou a debater com Guilherme sobre o que fazer com os meninos, até que chegaram à decisão de matá-los. “Ninguém em um momento desses sabe quem é a pessoa que entra dentro da sua casa de madrugada. E aí com medo de uma futura resposta, o Guilherme pegou e tinha sugerido: ‘rapaz bora logo acabar com isso bem aqui’’. Eu disse: ‘você quer realmente?’, e ele disse: ‘não, eu quero. Vamos ver, porque eu tenho medo que esses caras vão voltar lá em casa e vão acabar com a gente’. Eu disse: ‘tudo bem’ e acompanhei o Guilherme”, narrou o empresário.

Levou arma premeditadamente

No depoimento, João Paulo admite que levou a arma de fogo até a casa dos tios premeditadamente. Segundo ele, foi um modo de se precaver. “Eu tinha uma arma dentro do carro que, lógico, nessa ameaça que tinha da ligação da minha madrinha eu fui de precavido em relação a isso. Eu não sabia o que esperava encontrar lá”, contou.

Diante dessa declaração, o delegado Luiz Guilherme confrontou o acusado e questionou o porquê de ele ter levado a arma deliberadamente. “Eu não sabia o que era que a gente ia encontrar lá. Se era alguma ameaça. É aquele negócio, eu não sabia se encontrava uma pessoa lá armada com o meu tio, que ia acontecer algum tipo de ameaça desse tipo. Então, nesse meio termo eu tentei me precaver até pela minha própria vida. Se eu chegasse em um ambiente que eu não saberia o que eu ia encontrar, foi simplesmente para isso”, respondeu.

Os assassinatos

O empresário relata que o primo Guilherme pegou a arma dentro do carro e atirou nos adolescentes. “Ela estava no porta-luvas. Eu tinha falado para ele que estava lá. Ele pegou a arma e a gente desceu, quando a gente desceu aconteceu os fatos. [...] o Guilherme efetuou os disparos e a gente saiu. Quando a gente saiu, no meio do caminho eu disse: ‘rapaz, pelo amor de Deus, agora não tem volta não’”, declarou.

Foto: Reprodução/WhatsAppLuian Ribeiro de Oliveira e Anael Natan Colins Souza da Silva
Luian Ribeiro de Oliveira e Anael Natan Colins Souza da Silva

De acordo com João Paulo, ele e o primo entraram em desespero logo depois de saírem do local onde deixaram os dois corpos. “Eu disse: ‘rapaz, será que aconteceu dos meninos morrerem mesmo com esses disparos aí? Foi só um disparo em cada’. Aí na hora bateu o desespero e a gente voltou de novo lá no local para ver de fato. Quando a gente olhou e viu eles lá imóveis, pronto, todo mundo entrou em desespero. Eu disse: ‘rapaz, a gente fez merda aqui’”, detalhou.

Tios relatavam incômodos com festas

Conforme João Paulo, os tios nunca tinham ligado pedindo ajuda em uma situação como aquela, mas ele conta que o tio Francisco das Chagas reclamava de festas que eram realizadas ao lado da sua propriedade.

“Essa questão de auxílio nesse tipo não [nunca pediram]. Meu tio me relatava muito a questão da festa do lado, onde tinha muita questão de briga, drogas, ‘zuada’, não conseguia ter sossego na casa dele mais. Mas para me ligar para isso, não, nunca tinha acontecido”, concluiu.

Banco dos réus

No dia 08 de março o juiz Antônio Reis de Jesus Noleto, da 1ª Vara do Tribunal Popular do Júri, recebeu denúncia do Ministério Público e tornou réus João Paulo de Carvalho, seu primo Guilherme e o tio Francisco das Chagas.

Eles vão responder por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, tortura/meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa).

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