Na manhã desta terça-feira (14) a ex-chefe de gabinete de Dr. Pessoa, Suelene Pessoa, foi presa pela Polícia Civil do Piauí, suspeita de comandar um esquema de corrupção na Prefeitura de Teresina, por meio de “rachadinhas”, exigência de vantagens indevidas e outros atos ilícitos. O GP1 obteve acesso a prints de conversas de WhatsApp de Sol Pessoa, que demonstram como ela controlava com mão de ferro todas as contratações de terceirizados na administração municipal, exigindo parte do salário desses trabalhadores.
Também foram presos na Operação Gabinete de Ouro o empresário Marcus Almeida de Moura, Rafael Thiago Teixeira Ferreira e Mauro José de Sousa, este último ex-motorista de Dr. Pessoa.
Marcus Almeida foi funcionário terceirizado na prefeitura durante a gestão de Dr. Pessoa, contratado como auxiliar administrativo. Ele ficou conhecido como “magnata dos terceirizados” e é apontado como responsável por coordenar o esquema criminoso junto com Sol, enquanto Rafael Thiago e Mauro José realizavam movimentações financeiras de valores vultosos.
O inquérito policial foi instaurado ainda no ano passado pela Polícia Civil do Piauí, por meio do Departamento de Combate à Corrupção (DECCOR), após recebimento de um dossiê, que denunciava a existência de um “gabinete de ouro” no Palácio da Cidade.
No documento constavam informações sobre o esquema de rachadinha e suposto recebimento de vantagens indevidas por parte de Sol Pessoa, braço-direito de Dr. Pessoa. Tudo o que foi relatado foi devidamente verificado pela polícia, o que inclui a mansão luxuosa da ex-assessora avaliada em R$ 2,5 milhões, que, de acordo com as autoridades, foi dada de presente a Sol Pessoa por uma construtora, como vantagem indevida.
Toda essa atuação da ex-chefe de gabinete deixou rastros. Muitos desses vestígios foram identificados a partir da quebra de sigilo telemático, que revelou diversas trocas de mensagens entre Sol e pessoas envolvidas na administração municipal.
Poder no gabinete
As conversas obtidas pela polícia foram registradas desde o início da gestão de Dr. Pessoa. Na maioria delas, a então assessora ressalta que todas as contratações de terceirizados deveriam passar pelo gabinete do prefeito, que ela comandava.
Em uma dessas conversas, ocorrida em 4 de maio de 2021 com o também investigado Marcus Almeida, Sol delibera sobre a contratação de uma pessoa. Segundo a polícia, as diversas trocas de mensagens entre ambos demonstram perfeitamente a forte gestão e controle de Sol Pessoa sobre os terceirizados e a relação dela com Marcus Almeida.
Nessa conversa específica, Sol Pessoa pede que Marcus agilize uma contratação para lotação na Semcaspi e ainda informa o valor do salário.
Na sequência, ela pergunta se havia vaga na Semcaspi para salário de R$ 2.500,00, no que Marcus indica a possibilidade de contratar por outro setor e lotar na referida pasta.
“Tem que passar pelo gabinete”
Outro diálogo, registrado em 23 de junho de 2023, foi travado com Roberto Quadros, que se identificou como servidor da Secretaria Municipal de Administração e Recursos Humanos (Sema). Ele afirma que estava entrando em contato a pedido do então secretário, Ronney Lustosa, que solicitou informações sobre os terceirizados lotados na pasta.
Nesse diálogo, Sol Pessoa ressalta que todas as contratações, mesmo que indicadas por secretários, deveriam passar pelo gabinete do prefeito.
“Até mesmo para entrar tem que passar pelo gabinete do prefeito [...] tem que ter o controle. Eu acho que você entende que o prefeito tem que saber”, diz a mensagem enviada por Sol Pessoa ao servidor.
Depois, Sol Pessoa sustenta que todo esse processo de contratações é comandado por ela e o investigado Marcus Almeida. “Quanto ao Marcus, a única questão dele é que ele faz esse intermédio para ficar só uma conversa, entendeu? Para não ter várias pontas. Que aí eu vou saber se entrou, se deixou de entrar e saber por onde foi, o meio que entrou”, consta na mensagem da então chefe de gabinete.
Pix
Também foi revelada outra conversa ocorrida em 27 de março de 2023, onde Sol Pessoa pede para Marcus Almeida fazer duas transferências de R$ 2.300,00 para duas chaves Pix, uma delas de Vanicleudi Queiroz, que chegou a comandar a SAAD Sudeste na gestão de Dr. Pessoa.
Ocorre que as transferências foram realizadas da conta de Bruno Barbosa dos Santos, terceirizado da prefeitura à época. De acordo com a investigação, Sol Pessoa e Marcus Almeida se utilizavam de laranjas para ocultar movimentações bancárias.
“Para tanto, em concurso e com convergência de vontades, valiam-se de suas funções públicas para cometer os tipos penais de peculato e lavagem de dinheiro”, consta no relatório da Polícia Civil ao qual o GP1 obteve acesso.
Operadores financeiros
Também foram obtidas conversas de Sol com o investigado Rafael Thiago, ajudante de ordens da então assessora, que acumulava a função de motorista e operador financeiro do esquema.
Por meio das contas bancárias de Rafael, Sol Pessoa fazia diversos pagamentos, incluindo o aluguel do imóvel onde funciona a Associação Beneficente a favor da Vida e da Esperança, presidida por ela.
Em um diálogo ocorrido no dia 20 de novembro de 2023, Sol pede que Thiago efetue pagamento de R$ 4.740,00 para uma loja de itens de luxo de São Paulo, referente a compras feitas por ela. Em outra conversa, ele solicita ao auxiliar que faça transferência de R$ 3 mil para uma chave Pix.
Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que no período de 31/03/2022 a 21/03/2023, Rafael Thiago movimentou em sua conta de forma suspeita a quantia de R$ 2.347.646,00 (dois milhões e trezentos e quarenta e sete mil e seiscentos e quarenta e seis reais).
Segundo a polícia, a ex-chefe de gabinete mantinha contato direto com fornecedores, prestadores de serviço e donos de construtoras que atuavam para o Município de Teresina.
Em alguns desses diálogos, ela combina a entrega de encomendas e destaca o motorista Mauro José para receber no local indicado. “Além de receber ‘entregas’ de fornecedores, fica evidente que Mauro também conhecia Marcus Almeida, chegando inclusive a receber certas coisas dele a pedido da própria Sol Pessoa”, consta no relatório da polícia.
Além disso, a polícia informa que Mauro José depositou R$ 150 mil na conta da construtora que edificou a mansão de Sol Pessoa.
Plenos poderes na prefeitura
Durante coletiva de imprensa na manhã desta terça (14), o delegado Ferdinando Martins, do DECCOR, afirmou que Sol Pessoa detinha “controle sobre todos os atos da administração pública” enquanto exerceu a função de chefe de gabinete.
No âmbito da operação, a Justiça do Piauí determinou o sequestro da mansão de Sol Pessoa, de um apartamento de Rafael Thiago e de um sítio de Marcus Almeida, além de três veículos.
Brunno Suênio
Thais Guimarães
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