A política brasileira tem um talento particular para conciliar contradições. Se, em Brasília, Republicanos e PT se encontram em lados opostos, em Teresina os mesmos adversários se permitem apertos de mão, discursos conciliadores e até mesmo uma aliança estratégica com vistas ao futuro.
A comemoração dos 20 anos do Republicanos no Piauí, realizada na segunda-feira (18), foi marcada por uma dessas cenas em que a realidade regional relativiza a retórica nacional. O presidente nacional da sigla, Marcos Pereira, não apenas prestigiou o evento como também cravou: no Piauí, o Republicanos terá autonomia para apoiar a reeleição do governador Rafael Fonteles (PT) em 2026.
Esse gesto, anunciado em público e sacramentado em encontro no Palácio de Karnak, traduz uma lição antiga da política: os inimigos ideológicos em Brasília frequentemente se tornam aliados circunstanciais nos estados. O Republicanos, que projeta o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como alternativa à sucessão presidencial, encontra no Piauí um espaço de convivência com o PT, partido de Lula e de Rafael Fonteles, seu antagonista natural em nível nacional.
A explicação não se dá apenas por pragmatismo eleitoral, mas também pela dinâmica própria do poder regional. Ao conceder autonomia às suas seções estaduais, o Republicanos sinaliza que não pretende comprometer sua expansão no Nordeste por fidelidades automáticas à estratégia nacional. No cálculo, vale mais consolidar quadros locais, como o deputado federal Jadyel Alencar, que ganha carta branca para caminhar ao lado do governador petista, do que sustentar um discurso de oposição que, no Piauí, teria pouco efeito prático.
O gesto, contudo, não é isolado. Marcos Pereira deixou claro que esse movimento se repetirá em outros estados nordestinos, onde o Republicanos prefere ser sócio do poder vigente a um opositor sem acesso às engrenagens administrativas. Ao mesmo tempo em que celebra sua autonomia nos estados, o partido costura nacionalmente uma federação com o MDB, numa clara tentativa de ampliar seu raio de influência.
A política, ensinava Ulysses Guimarães, é a arte da convivência com os contrários. O que se vê no Piauí é a tradução perfeita dessa máxima: Republicanos e PT se aproximam em nome de interesses imediatos, ainda que, no horizonte nacional, um caminhe para a candidatura de Tarcísio e o outro para a manutenção do projeto lulista.
Não há nisso incoerência; há cálculo. No Brasil, os partidos são menos templos ideológicos e mais instrumentos de poder. A festa de aniversário em Teresina foi mais uma dessas ocasiões em que os discursos festivos escondem, por trás do brinde, a matemática fria das alianças. O Republicanos se permite estar com o PT no Piauí e contra o PT em São Paulo. Ao eleitor, resta assistir ao jogo e perceber que, na política, a geografia costuma pesar mais que a ideologia.
Caroline Vitorino
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