Uma conversa gravada entre o presidente da Câmara de Vereadores de São João da Serra, Raimundo Coimbra (MDB), e uma ex-funcionária da Casa vazou nas redes sociais nesta quarta-feira (25), em que ele ameaça cortar o 13º salário de servidores. A mulher acusa o vereador de pedir seu salário extra, mas o parlamentar nega e diz que a gravação foi manipulada na tentativa de incriminá-lo.
No áudio, Raimundo Coimbra também afirma que iria diminuir os salários dos funcionários para um salário mínimo. Procurado pelo GP1, o presidente da Casa afirmou que os servidores costumavam receber dois salários, em que o segundo era repassado para o vereador que indicou o funcionário ao cargo.
Diante disso, a gravação vazada em diversas páginas na internet escancara um esquema de rachadinha que perdurou por anos na Câmara Municipal de São João da Serra, o qual ele nega ter qualquer participação. Enfrentando essas acusações, o vereador afirmou que “não sabe mais o que fazer”.
Confira trecho da conversa
Raimundo: Tu mesmo dava o dinheiro todinho e batia palma, eu que sou abestado.
Ex-funcionária: O décimo do ano passado eu não dei. É sério, eu não dei não.
Raimundo: Mas fique sabendo, em janeiro eu tiro tudinho.
Ex-funcionária: Por causa disso aí?
Raimundo: Por causa disso aí. Porque antes vocês davam para eles roubarem, para eles desviarem. Não é certo, eu sei. Você dava que era para os outros [vereadores] para eles roubarem.
Ex-funcionária: Mas isso também é roubo Raimundo.
Raimundo: É não. Tá investindo na Câmara.
Ex-funcionária: Nem que seja na Câmara, não é certo.
Raimundo: Pois tá bom, em janeiro eu mudo tudo.
Ex-funcionária: Se tu vai mudar porque um funcionário não quer dar um décimo para comprar letra para uma Câmara
Raimundo: É porque vocês fizeram toda a vida o errado.
Ex-funcionária: ‘Nois’ não, funcionário não. Quem faz errado são os vereadores. Funcionário é coagido.
Raimundo: Eu não estou coagindo ninguém, só estou dizendo. Tem coisa errada demais aqui, eu não concordo. Vou baixar de todo mundo para um salário mínimo e o outro [salário] vai ficar para fazer as coisas da Câmara. Por que não disse que é para devolver para eles [vereadores]? Pois agora ninguém vai devolver mais nada, não.
Ex-funcionária: Eu sei que o meu [salário] eu não devolvo mais.
Resposta de Raimundo
Questionado sobre o contexto da conversa, o presidente da Câmara Municipal de São João da Serra disse que toda a gravação foi recortada. Ele diz que a servidora que aparece no áudio havia lhe oferecido o 13º salário dela, mas o vereador recusou a proposta. Ao invés disso, Raimundo Coimbra propôs que ela fizesse a doação do valor para a compra do letreiro da Câmara.
“Há um ano atrás, quando eu entrei [na Presidência], a partir daí ela disse: ‘Raimundo, eu sei que você não concorda com as coisas, eu não vou mais dar dinheiro para o [nome do vereador]'. Era para ela devolver um salário. No final, quando ela foi pegar o 13º salário dela, ela disse que ia me dar um presente, um dinheiro para mim. Graças a Deus, eu disse que não, eu falei ‘se você quiser dar, dê para a Câmara'. Pode ver que nos áudios cortam algumas coisas. Eles só botaram o que ela quis. Depois, ela diz que não ia dar, mesmo sendo para a Câmara. Essa é toda a confusão”, descreveu o presidente da Casa.
Ele disse que depois a mulher o procurou, dizendo que não daria mais o valor, mas ele já teria encomendado o letreiro, motivo pelo qual se chateou e afirmou que “em janeiro tudo iria mudar”. O vereador diz que não pediu nada à ex-funcionária na gravação, e nem mesmo a coagiu, enquanto ela expõe que chegou a dar salários a outros vereadores, evidenciando o esquema de rachadinha que operou por anos entre os comissionados e parlamentares da Casa.
Acusações
A mesma servidora que gravou a conversa com o vereador Raimundo Coimbra o acusa pelas práticas de assédio moral e ameaça. Enquanto isso, o parlamentar nega essa prática e diz estar sendo alvo de perseguição depois de ter exonerado a ex-funcionária. Ele afirmou que a situação se agravou depois que se recusou a conceder diárias indevidas aos vereadores, e que existe uma movimentação para que o tirem do cargo.
“Eu exonerei o controlador, que era de uma vereadora que o indicava. O controlador não trabalhava e dividia [o salário]. Eu fui contra o sistema. Eu tenho oito vereadores que estão contra mim por eu não aceitar que fossem pagar diárias indevidas, por não concordar com o desperdício de dinheiro público. Eu não sei mais o que fazer. Eles me agrediram dizendo que eu não sou homem porque sou homossexual, assumido. Eles me odeiam porque eu sou pobre, sou zelador. Sou de Elesbão Veloso. Cheguei a sofrer homofobia dentro da própria Câmara”, relatou Coimbra.
Carolina Matta
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