O avanço dos casos de intoxicação por metanol em São Paulo acendeu um alerta no Ministério da Saúde e em outros órgãos federais. Somente nesta segunda-feira (29), o governo confirmou dez ocorrências relacionadas ao consumo de bebidas adulteradas, das quais três resultaram em morte. A situação levou à convocação de uma reunião extraordinária do Sistema de Alerta Rápido (SAR), com representantes de diferentes ministérios e da Polícia Federal.
De acordo com o Ministério da Saúde, os pacientes afetados relataram ingestão de bebidas destiladas como gin, whisky e vodka em ambientes sociais, o que representa um novo padrão de intoxicação. Até então, a maioria dos registros de contaminação por metanol estava associada a pessoas em situação de vulnerabilidade, que consumiam álcool adulterado encontrado em postos de gasolina.
O Governo Federal anunciou que a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) vai emitir alertas aos Procons de todo o país, com recomendações a fornecedores e consumidores. Já o Ministério da Agricultura e Pecuária realiza levantamentos para reforçar a fiscalização da produção e comercialização de bebidas alcoólicas.
A orientação das autoridades é que consumidores desconfiem de preços muito abaixo do mercado, embalagens com sinais de violação ou ausência de rótulos oficiais. Além disso, casos de suspeita devem ser imediatamente notificados às autoridades de saúde, já que a ingestão de metanol pode causar cegueira, falência múltipla de órgãos e até a morte.
Entenda o caso
Três pessoas morreram e ao menos oito foram internadas em menos de três semanas após casos de intoxicação por metanol em bebidas alcoólicas adulteradas em São Paulo, segundo dados da Vigilância Sanitária. As ocorrências foram registradas entre os dias 1º e 18 de setembro, nas cidades de São Paulo, Limeira e Bragança Paulista.
Uma das vítimas foi um homem de 54 anos, na capital, que apresentou sintomas no dia 9 e morreu dias depois em um hospital da rede privada. Outro homem, de 38 anos, morreu em São Bernardo do Campo. Na mesma cidade, um terceiro homem, de 45 anos, faleceu nesta segunda-feira (24). Além desses casos, alguns pacientes permanecem internados, enquanto outros já receberam alta.
Algumas vítimas apresentaram cegueira após a ingestão da bebida contaminada. O metanol é um álcool simples, incolor e altamente tóxico, utilizado em solventes, combustíveis, tintas e plásticos. Quando ingerido, se transforma em substâncias que atacam o fígado, os rins, o cérebro e o nervo óptico.
O tratamento é considerado uma emergência médica e pode incluir o uso de medicamentos e até a realização de diálise. A rapidez no atendimento é determinante para a sobrevivência das vítimas e para a prevenção de sequelas graves.
Suspeita de que bebidas alcoólicas adulteradas tenham ligação com facções criminosas
A Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) alerta que o metanol usado para adulterar bebidas pode ter a mesma característica e origem de lotes importados ilegalmente pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para fraudar combustíveis.
De acordo com a entidade, policiais fecharam distribuidoras e formuladoras ligadas ao esquema. O produto teria sido repassado a destilarias clandestinas e falsificadores de bebidas alcoólicas, em busca de lucro.
A suspeita de que o metanol usado para “batizar” bebidas alcoólicas venha de carregamentos importados pelo PCC está alinhada à Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto pela Polícia Federal, Receita Federal e Ministério Público de São Paulo. Conforme as investigações, postos vendiam gasolina com até 90% de metanol, muito acima do limite legal.
Caroline Vitorino
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