Em política, nem sempre o jogo se joga nos palanques ou nos plenários. Muitas vezes, as maiores batalhas são travadas no campo invisível das ideias, naquilo que podemos ou não discutir publicamente, no que é considerado razoável ou inaceitável, no que soa como bom senso ou como radicalismo. Foi refletindo sobre isso que me deparei com um conceito que ajuda a entender muito do que vivemos hoje no Brasil e no mundo: a Janela de Overton.
Essa teoria, desenvolvida pelo pesquisador norte-americano Joseph P. Overton, parte de uma premissa simples e poderosa: em qualquer sociedade, existe uma faixa de ideias consideradas politicamente aceitáveis. Essa “janela” delimita o que pode ser debatido publicamente com alguma chance de apoio — e, consequentemente, de implementação. Fora dela, estão as ideias que soam absurdas, perigosas, impensáveis.
Mas o mais fascinante (e preocupante) é que essa janela não é fixa. Ela se move. E quando ela se move, muda tudo.
Ao longo da história, vimos isso acontecer várias vezes. O que era impensável ontem pode se tornar normal amanhã. E o caminho para isso não é, necessariamente, convencer a maioria — mas acostumá-la, aos poucos, a ouvir, repetir, discutir. É um trabalho que envolve linguagem, cultura, comunicação e estratégia política.
Pense, por exemplo, na legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Nos anos 60, era algo impensável. Nos anos 90, passou a ser discutido em termos de “união civil”. Em 2010, já se falava em igualdade de direitos. E hoje, em muitos países, o casamento gay é uma realidade legal e socialmente aceita. A janela se moveu.
Essa mudança não aconteceu por acaso. Foi fruto de movimentos sociais, campanhas de mídia, representações culturais (cinema, novelas, música), decisões judiciais, pressão internacional e articulação política. Um processo longo, com avanços e retrocessos, mas eficaz em alterar a percepção pública.
Há momentos em que a janela se desloca de forma muito fmais rápida: nas crises. Guerras, pandemias, recessões ou colapsos institucionais abrem espaço para propostas antes vistas como extremas.
Foi assim após o 11 de Setembro, quando os EUA aprovaram o Patriot Act, ampliando poderes de vigilância e controle estatal. Em contextos normais, isso talvez fosse rejeitado. Mas sob o impacto do medo, tornou-se aceitável. A segurança pública, ali, justificou a restrição de liberdades civis.
No Brasil, vimos algo parecido durante a pandemia de COVID-19. Lockdowns, passaportes sanitários, fechamento de comércios, proibição de cultos religiosos , medidas excepcionais, que seriam alvo de fortes críticas em outros tempos, passaram a ser toleradas, até defendidas por parte da população. O discurso da “ciência” e da “proteção coletiva” sustentou a movimentação da janela.
A compreensão da Janela de Overton também nos revela um aspecto essencial da política contemporânea: os governos e partidos não se limitam a disputar votos, eles disputam a definição do que é aceitável discutir.
Quando um governo começa a perseguir certos temas como “fake news”, censura vozes dissonantes ou manipula algoritmos para amplificar determinados discursos, ele não está apenas tentando vencer uma eleição, está tentando redefinir os limites da janela. Está, em outras palavras, tentando calar um lado e empurrar o outro para o centro do debate.
O mesmo vale para movimentos culturais, ONGs, líderes religiosos ou empresariais. Todos, em alguma medida, tentam deslocar a janela em direção aos seus valores, princípios e interesses. Alguns querem mais Estado, outros menos. Uns querem mais liberdade, outros mais controle. E todos sabem que a batalha se vence antes do voto, ela se vence no campo das ideias.
Vivemos, hoje, uma disputa intensa pela narrativa pública. O debate político está cada vez mais polarizado e emocional, e a consequência disso é que a janela de Overton se estreita: fica mais difícil discutir temas complexos sem ser rotulado de extremista ou inimigo da democracia.
Veja o caso da reforma tributária. É um tema que deveria estar no centro do debate público, mas que acaba soterrado por disputas ideológicas, narrativas simplistas e campanhas de desinformação. A janela se desloca para longe da racionalidade e se prende à espuma do embate diário.
Ou ainda o caso da segurança pública. Durante anos, propostas mais duras contra o crime eram tratadas como “retrocesso” ou “violência de Estado”. Hoje, com o aumento da criminalidade em muitas cidades, parte da população começa a aceitar essas propostas como legítimas. A sensação de insegurança empurra a janela novamente.
Como cidadão, vejo a Janela de Overton como um alerta. Ela nos obriga a olhar com mais cuidado para o modo como nos relacionamos com ideias novas e com ideias antigas. Exige que estejamos atentos não apenas ao conteúdo das propostas, mas ao contexto em que elas se tornam aceitáveis.
Ao entender como a janela se move, podemos agir com mais consciência, menos ingenuidade e maior responsabilidade no debate público. E, sobretudo, podemos evitar cair no jogo de quem quer definir, por nós, o que é possível pensar.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e palestrante, atualmente abordando o tema: “Narciso, a cultura do espelho”, título de seu novo livro, com lançamento previsto para outubro de 2025. Possui MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing; pós-graduação em Gestão, Governança e Setor Público; pós-graduação em Novas Tecnologias, Transformação Digital e Agilidade; pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia; e pós-graduação em Comunicação Eleitoral e Marketing Político. Escreve às segundas-feiras no Portal GP1.
E-mail: [email protected].
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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