A Organização das Nações Unidas (ONU) denunciou, nesta terça-feira (12), o avanço das operações militares israelenses e dos ataques promovidos por colonos na Cisjordânia ocupada. Segundo o organismo internacional, ao menos 70 crianças palestinas morreram desde o início de 2025 em meio à escalada da violência na região. Porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), James Elder afirmou que “as crianças estão pagando um preço intolerável pela escalada das operações militares e dos ataques de colonos em toda a Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental”.
De acordo com Elder, desde janeiro deste ano, quando Israel iniciou uma nova operação militar na Cisjordânia, “ao menos uma criança palestina foi morta, em média, a casa semana”. Além das mortes, outras 850 crianças ficaram feridas no período. “A maioria dos mortos ou feridos foi atingida por munição real”, declarou. A violência na Cisjordânia aumentou desde o início da guerra em Gaza, desencadeada após os ataques do Hamas em Israel, em outubro de 2023. O território palestino é ocupado por Israel desde 1967, situação considerada uma violação do direito internacional pela ONU. Segundo levantamento da agência AFP com base em dados da Autoridade Palestina, ao menos 1.070 palestinos foram mortos desde então por soldados ou colonos israelenses. Já autoridades israelenses afirmam que 46 israelenses, entre civis e militares, morreram no mesmo período.
A ONU também aponta que Israel ampliou projetos de expansão territorial na Cisjordânia. James Elder afirmou que as forças israelenses foram responsáveis por 93% das mortes de crianças registradas na região, mas destacou ainda “níveis históricos de ataques de colonos”. Segundo o representante do Unicef, março de 2026 teve o maior número de palestinos feridos por colonos israelenses em pelo menos duas décadas. Ele citou “incidentes documentados (que incluem) crianças baleadas, esfaqueadas, espancadas”. Dados das Forças de Defesa de Israel (FDI) e da agência de segurança interna Shin Bet já indicavam um aumento de 27% nos ataques cometidos por colonos extremistas e militares israelenses contra palestinos na Cisjordânia em 2025, na comparação com o ano anterior.
Durante a coletiva, Elder relatou o caso de um menino de oito anos que dormia do lado de fora de casa quando colonos atacaram a aldeia onde vivia. “A casa da família havia sido demolida dois meses antes, então ele dormia do lado de fora”, contou. Segundo ele, o garoto “foi espancado com um pedaço de madeira e hospitalizado com ferimentos na cabeça”.
O representante da ONU afirmou ainda que os episódios de violência acontecem em paralelo ao “desmonte constante das condições de que as crianças precisam para sobreviver e crescer”.
“As casas são demolidas, a educação é destruída, sistemas de água são atacados, o acesso à saúde é obstruído, a circulação é restringida”, afirmou. A ONU também alertou para o aumento de barreiras e restrições de circulação impostas na Cisjordânia. Segundo Elder, isso faz com que crianças sejam “rotineiramente isoladas das escolas, dos hospitais e de outros serviços essenciais”.
O cenário provocou deslocamentos em massa na região. Mais de 2.500 palestinos foram obrigados a deixar suas casas apenas nos quatro primeiros meses deste ano, sendo 1.100 crianças. “Isso supera o total de deslocamentos registrados em 2025”, ressaltou Elder. A educação também vem sendo impactada diretamente pela violência. De acordo com o Unicef, houve “99 incidentes relacionados à educação documentados somente neste ano, incluindo a morte, ferimentos e detenção de estudantes, a demolição de escolas, o uso militar de prédios escolares e a negação de acesso”.
Segundo Elder, muitas crianças vivem em estado constante de medo até mesmo no trajeto para a escola. Elas “não seguem em linha reta porque estão constantemente olhando por cima do ombro”, disse. O porta-voz ainda destacou o crescimento no número de detenções de menores palestinos. Dados mais recentes apontam que 347 crianças da Cisjordânia estavam presas em unidades militares israelenses por supostas infrações de segurança, o maior número registrado nos últimos oito anos.
Ao final, Elder afirmou que o Unicef cobra das autoridades israelenses ações imediatas. O órgão pede que Israel “tome medidas imediatas e decisivas para impedir novas mortes e mutilações de crianças palestinas e para proteger suas casas, suas escolas e seu acesso à água, em conformidade com o direito internacional”. Ele também afirmou que outros países devem “usar sua influência para garantir que o direito internacional seja respeitado”.
Leandro Soares
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