Teresina - PI

PSOL declara voto nulo na eleição para prefeito de Teresina

Estão no segundo turno, o candidato Dr. Pessoa, do MDB, e Kleber Montezuma, do PSDB.

Wanessa Gommes
Teresina
- atualizado

O Diretório do PSOL de Teresina, que teve como candidata a prefeita de Teresina, Lucineide Barros, declarou, nesta quinta-feira (19), que o partido não vai apoiar nenhum dos dois candidatos que estão no segundo turno. Em nota, a sigla afirmou que votará nulo.

Estão no segundo turno, o candidato Dr. Pessoa, do MDB, e Kleber Montezuma, do PSDB. Eles receberam, respectivamente, 142.769 votos (34,53%) e 110.395 votos, (26,70%).

  • Foto: Marcelo Cardoso/GP1Lucineide Barros Lucineide Barros

“Não compraremos a narrativa do 'menos pior' influenciada pela propaganda eleitoral de um candidato “experiente, preparado, responsável, atencioso aos problemas da cidade, gestor da educação”, diz trecho da nota.

Segundo o diretório, o posicionamento da sigla está atrelado a um plano de trabalho. “Esse posicionamento vem junto com um plano de trabalho para retornarmos a todos os lugares por onde andamos, onde conversamos durante a campanha. Nosso convite é para que as pessoas se organizem politicamente, e oferecemos o nosso apoio, considerando os dias difíceis que serão enfrentados, porque não podemos resolver nossos problemas apenas num dia de eleição a cada quatro anos, escolhendo um “mal menor” ou “mal necessário”.

Ainda de acordo com a nota, o voto nulo é de quem sofre a repressão e as violências causadas pelo poder público municipal aos que lutam.

Confira abaixo nota na íntegra:

O PSOL é um partido forjado nas lutas, sua trajetória tem sido de uma atuação destacada, em defesa dos direitos sociais, por uma educação pública, gratuita e de qualidade, por Saúde garantida universalmente, pelos direitos das trabalhadoras e trabalhadores, no enfrentamento às opressões, na luta contra as privatizações, entre outras lutas que marcaram os últimos 16 anos de nossa existência, e que atravessam o nosso dia a dia de construção de um projeto Socialista e para o Bem Viver no Brasil, no Piauí, e em Teresina.

Seguindo esses princípios, apresentamos uma proposta para Teresina no intuito de superar o atual modelo de cidade - governada para os mais ricos desde sempre, que nega o direito à Teresina para a maioria da população. Nosso projeto político objetiva uma gestão democrática, compartilhada, participativa, que inverte as prioridades da cidade. Representado por Lucineide e Cyntia nas urnas, foi aprovado por 8.283 eleitores no dia 15 de novembro, expressando um crescimento de 62% da votação do PSOL em relação ao último pleito, um resultado que muito nos orgulha, e que mostra que há um caminho para o crescimento do nosso partido enquanto alternativa de esquerda na capital.

Em Agosto, o PSOL Teresina afirmou em nota:

“Estamos diante de uma dupla tarefa nas eleições de 2020: primeiro, apresentar no âmbito local uma saída à esquerda para a crise que vivemos; segundo, conter o avanço das forças de extrema-direita e seus aliados em Teresina. Para isso, colocamos o fortalecimento do PSOL como uma das tarefas prioritárias a serem cumpridas. Sem um instrumento partidário capaz de manter vivas as bandeiras da transformação radical da sociedade, o apelo pela unidade torna-se irrelevante. Nesse sentido, optamos por lançar uma pré-candidatura própria, com Lucineide Barros, apresentando um projeto coletivo para Teresina [...] que expresse a resistência popular à política neoliberal e anti-povo de Firmino e dos 30 anos de PSDB à frente da prefeitura.”

Partindo dessa leitura sobre o contexto político local, é possível afirmar que demos passos importantes para o fortalecimento do PSOL, mas uma reorganização da esquerda ainda não se consolidou, e portanto o resultado das eleições foi favorável a um setor da direita tradicional, que levou a maioria da população teresinense a votar, seja pelo abuso do poder econômico contra os eleitores, agravado pelo contexto de miséria gerado pela pandemia, seja pelo aparelhamento da prefeitura. Pelos mesmos motivos, praticamente não houve renovação para a Câmara Municipal, apesar de 41% dos(as) eleitos(as) serem vereadores(as) novos(as), fazem parte de velhos esquemas. Os três negros não somam para as lutas antirracistas e tampouco as cinco mulheres somam para a luta antimachista e feminista. O cenário é bastante desfavorável à construção de um projeto de esquerda Socialista e para o Bem Viver.

O setor vitorioso é conhecido como “Centrão”, representado tanto na coligação de Dr. Pessoa (MDB / PSB / PRTB) quanto na de Kleber Montezuma (PSDB / PP / PSL / AVANTE / PDT / DEM / PMB / PV / PODE). São agrupamentos conservadores que se movem principalmente por práticas clientelistas e fisiológicas, trocam interesses a partir do que gera mais apoios políticos e inserção na máquina pública para beneficiar interesses particulares, e por isso já vimos se aliarem a setores que vão da extrema direita à centro esquerda. Hoje, o Centrão é o principal aliado do Governo Bolsonaro no Congresso Nacional. Apesar disso, nenhuma dessas duas candidaturas fez uma campanha a partir de uma linguagem muito direta de aproximação com o fenômeno do Bolsonarismo (provavelmente por medo de associar a impopularidade de Bolsonaro em Teresina a si), o que reflete a dinâmica nacional de fortalecimento do Centrão nas eleições de 2020, e de dependência cada vez maior por parte do Governo Federal a esse campo da política.

O segundo turno dessas eleições é um verdadeiro show de horrores. Há hoje, por parte de muitos dos eleitores que votaram em outras candidaturas no primeiro turno, uma preocupação em analisar essas duas candidaturas que vão ao segundo turno a partir de alguns critérios: qual delas é a “menos pior”, qual delas é “menos bolsonarista”, qual delas é “mais preparada para organizar a gestão do executivo municipal”. Buscar identificar o que diferencia politicamente duas candidaturas é importante, mas acreditamos que essa busca não está sendo pautada pelo que de fato impulsiona essas campanhas.

Para tirar do caminho um dos primeiros pontos que gera dúvida no eleitorado: tanto o PSDB de Montezuma, através do seu ex-candidato a governador, quanto o Dr. Pessoa, em 2018, apoiaram a candidatura de Bolsonaro no segundo turno. Dito isso, a maior representação de aliança com Bolsonaro atualmente no Piauí é Ciro Nogueira, do Progressistas, ex-aliado de Wellington Dias, e hoje o principal articulador da aliança entre Bolsonaro e o Centrão, que já pediu para ser chamado de “05”, em referência aos filhos do Presidente. O Progressistas foi responsável por financiar 27% dos recursos de campanha de Kleber (890.000,00 reais, segundo o TSE).

Enquanto isso, Dr. Pessoa, médico que afirma que não “fechará” Teresina em possível segunda onda da COVID-19, e que vestiu camiseta do Bolsonaro em 2018, recebeu nos últimos dias o apoio de figuras públicas do PT, em especial de Wellington Dias. As negociatas da velha política do Piauí escancaram o óbvio: o segundo turno em Teresina se tornou uma disputa para definir que rumos tomará a eleição para Governador em 2022.

Nenhuma das duas candidaturas que disputam o segundo turno são alternativas, sequer do ponto de vista tático, pois as duas se encontram no horizonte próximo, seja na base bolsonarista, seja na lógica ultra neoliberal da retirada de direitos e de implementação da reforma administrativa que já deve ser aprovada.

Não compraremos a narrativa do “menos pior” influenciada pela propaganda eleitoral de um candidato “experiente, preparado, responsável, atencioso aos problemas da cidade, gestor da educação”, pois do ponto de vista de quem foi expulso pelo PSDB de sua moradia na Avenida Boa Esperança por causa das obras do programa Lagoas do Norte, dos professores da rede municipal que estão em greve há 253 dias e sofrem perseguição com os contracheques zerados, da juventude negra que sofre com a repressão da Guarda Municipal, de quem sofre esperando nas paradas de ônibus e quando se manifesta é recebido com portas fechadas e policiais armados, e tantos outros Teresinenses, ouvir que esse é o “menos pior” será algo absurdo. Também não compraremos a narrativa de um candidato “preocupado com o que o povo sente, que se parece com o povo, que tá aí pra mudar” porque conhecemos o projeto e as figuras que estão por trás do perfil populista, porque vivemos e lutamos contra os governos do MDB/PSB no Piauí.

Como partido, o PSOL afirma aqui o nosso lado, o lado que proclamamos o tempo todo durante a campanha. Não podemos nos confundir, nem colaborar para que haja ainda mais despolitização. Devemos votar nulo. Esse posicionamento vem junto com um plano de trabalho para retornarmos a todos os lugares por onde andamos, onde conversamos durante a campanha. Nosso convite é para que as pessoas se organizem politicamente, e oferecemos o nosso apoio, considerando os dias difíceis que serão enfrentados, porque não podemos resolver nossos problemas apenas num dia de eleição a cada quatro anos, escolhendo um “mal menor” ou “mal necessário”.

Deixemos o personalismo da figuras que se apresentam como candidatas e façamos a leitura do projeto: é o mesmo. Entre duas direitas iguais, podemos dizer não, e optar pela construção e fortalecimento de uma alternativa de esquerda nos nossos bairros, nos locais de trabalho ou de estudo. Nossa base programática não pode deixar de se pautar em um princípio: o resgate da independência política dos trabalhadores e excluídos. Nossas alianças para construir um projeto alternativo buscarão a unidade entre todos os setores do povo trabalhador, e isso só pode ser feito se nos dispusermos ao trabalho de base, com a juventude, mulheres, negros e negras, LGBTQIA+, enfim, não se trata de sairmos de onde estamos, mas de ir além de onde estamos para dialogar com quem ainda não dialogamos. A tarefa de um partido político e de sua militância organizada não se encerra nas urnas.

Quem escolhe votar nulo, escolhe com a razão do seu convencimento. Nosso voto nulo não é o voto do lugar confortável da história, pelo contrário. É o voto de quem sofre a repressão e as violências causadas pelo poder público municipal aos que lutam, e que vão continuar na luta independente de quem tomar posse em 1º de Janeiro de 2021. Enquanto partido, nossa tarefa será construir alternativa para essa falsa polarização e luta social contra os desmantelos feitos por quem for eleito - e esse sim, o eleito, é que será o pior.

Diretório Municipal do PSOL Teresina

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