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Operação Hidra de Lerna: vítima relata como caiu em golpe de despachante

Mateus Cardoso registrou um boletim de ocorrência contra o falso despachante Mario de Sousa Silva.

O trabalhador autônomo Mateus Cardoso entrou em contato com o GP1 nesta segunda-feira (04) para relatar que foi vítima de um golpe envolvendo o falso despachante Mário de Sousa Silva, preso durante a Operação Hidra de Lerna, deflagrada pela Polícia Civil do Piauí, juntamente com a Polícia Civil do Maranhão, na última quinta-feira (30).

Mateus Cardoso afirmou para nossa reportagem que comprou uma motocicleta modelo Pop 100 em junho de 2021 e por indicação do vendedor, identificado como Ítalo, acabou entregando os documentos do veículo para o suposto despachante, Mario de Sousa Silva, realizar a transferência da motocicleta.

Na época, a vítima ainda transferiu R$ 475 pelo serviço do suposto despachante. “Comprei uma moto usada no ano passado e por indicação levei ao Mário [suposto despachante]. Passou vários meses e ele nunca resolveu nada da transferência, sendo que já tinha feito o pagamento de R$ 475”, relatou o autônomo.

Suspeitando de que teria caído em um golpe, ele foi até o Conselho Regional dos Despachantes Documentalistas do Piauí – CRDD-PI. “Eu fui no conselho de despachantes do Piauí e descobri que ele não era despachante, era um atravessador. Com muita luta consegui os documentos do veículo de volta. Eu encontrei ele em janeiro e ele ficou de me pagar pingado os valores, de semana em semana pagar R$ 50, mas não houve nenhum pagamento. Então fiz o boletim de ocorrência no 13º DP”, disse a vítima.

O trabalhador autônomo não conseguiu reaver o dinheiro e pediu que mais vítimas façam boletim de ocorrência contra o falso despachante. “Como minha ocorrência era pequena, teria que ter pelo menos umas 30 vítimas para o juiz determinar algo de retorno financeiro. Espero que mais vítimas corram atrás dos seus direitos e façam o boletim de ocorrência”, finalizou Mateus.

Operação Hidra de Lerna

A operação foi deflagrada através do 13º Distrito Policial de Teresina com o apoio de delegacias especializadas, juntamente com a Polícia Civil do Maranhão, para cumprir 21 mandados de prisão temporária e 34 mandados de busca e apreensão, a fim de desarticular uma organização criminosa que atuava em um complexo esquema de aquisição de veículos com a utilização de notas fiscais frias.

O grupo criminoso é suspeito de confeccionar documentos de transferência e de licenciamento anual (DUT e CRLV) sem a presença dos veículos para, assim, possibilitar acesso a empréstimos e consórcios de veículos que sequer existiam.

As investigações apontam que, apesar de terem sido identificados 37 veículos alvos desse golpe, a estimativa é que entre 100 a 300 veículos foram emplacados dessa forma, causando prejuízo estimado de até R$ 130 milhões somente no estado do Piauí e de R$ 1 bilhão no Brasil inteiro, com exceção de dois estados.

Como funcionava o esquema

Os criminosos fraudavam a numeração do chassi dos falsos veículos utilizando pinhos, depois escreviam em uma superfície e revelavam em uma espécie de adesivo. Com as placas em mãos, eles iniciavam a venda e ao fazer a prova de vida do carro, utilizavam placas de outros veículos.

Os veículos fraudados eram de primeiro emplacamento e a venda era feita preferencialmente através de consórcio ou financiamento pelo banco. O proprietário original do veículo recebia a quantia em dinheiro depositava pelo banco ou operadora do consórcio, que possuía envolvimento direto com a organização criminosa e, após o comprador reconhecer firma no DUT, a fraude estava finalizada.

Como atuavam

Maria Ovete: era responsável por iniciar e validar a fraude, usando o ato administrativo de emplacamento de veículos, todos com notas fiscais falsas, alegando primeiro emplacamento.

Osmar Muniz Neto: a sua função na organização seria a de agilizar os processos e fazer funcionar o resto da engrenagem que faria a fraude se desenvolver, agindo como um coringa (cartas) ou uma rainha (xadrez). Além disso, ele ainda cooptava estampadoras de placas de veículos para burlarem o sistema de informação da Utsch Brasil, responsável por toda a automação do sistema gerador e estampador das placas Mercosul do Detran-PI.

Raimundo da Costa Araújo: despachante não credenciado que atuava no DETRAN-PI há bastante tempo. Segundo as investigações, ficou claro que ele cometeu uma série de crimes.

Joselito Pereira de Sousa: comprava e vendia decalques de marcação de chassis, transferia veículos sem a presença física dos mesmos à base de propinas, enfim, cometia toda sorte de infrações criminais que causavam, em última instância, descrédito no sistema que existe justamente para dar segurança para os usuários.

Márcio de Sousa Silva e Mário de Sousa Silva: irmãos gêmeos e despachantes não credenciados no DETRAN-PI há bastante tempo. São mencionados como vendedores de decalques do DETRAN-PI de marcação de CHASSIs, sendo que estes não deveriam ser vendidos, muito menos por despachantes que nem eram credenciados.

Francisco Carlos Nunes Teixeira, Dorival da Silva Araújo: Todos esses representados, dentro da liderança de Francisco Carlos, foram os responsáveis, na condição de servidores públicos do DETRAN-PI, para ratificar a presença física e a respectiva vistoria de inúmeros veículos que nunca existiram.

Marcio Marques de Moura Paiva: era funcionário do DETRAN-PI e trabalhava no atendimento (recebimento de documentos para primeiro emplacamento etc.). Segundo a investigação e o próprio investigado, Marcio Paiva recebia dinheiro da organização para receber propina pelos veículos inexistentes. Ele admitiu que patrocinava interesses de empresas privadas, perante o DETRAN-PI, valendo-se da qualidade de servidor público desse órgão.

Hélcio Laércio, Lucilene Lira, Pedro Gabriel e Daniela Francisca: são o coração da organização criminosa. Logística, braço financeiro e maiores beneficiários das operações fraudulentas. São os bastidores de todo o esquema e não apenas o que ocorreu no DETRAN-PI, mas outros crimes/golpes bem como em outros DETRANs.

Há indicativos sérios de vultosa movimentação financeira com empresas de fachadas com valores de origem suspeita, indicando uma série de crimes em cadeia.

Antônio Reis Alves da Silva: dois são os momentos que a presença física do veículo é necessária para primeiro emplacamento e transferência: a) na vistoria, realizada pelo próprio DETRAN, e; b) por ocasião do emplacamento, atividade realizada por uma empresa estampadora (empresa terceirizada). A investigação apontou que era nesse ponto que Antonio Reis atuava.

Gabriel Seabra: é uma peça fundamental na engrenagem do crime, tinha acesso livre em todos os setores do Detran-PI, e, com esse livre acesso, praticava os mais diversos tipos de crime, mormente adulterando documentação com a finalidade de se conseguir DUTs e CRVLs falsos.

Reveraldo Ribeiro: todos os indicativos apontam Reveraldo Ribeiro como o grande responsável por várias fraudes na confecção de documentos de veículos que nunca existiram.

Crimes

Os alvos da operação são acusados de 12 crimes: estelionato, falsificação de documento público, falsificação de documento particular, falsidade ideológica, uso de documento falso, adulteração de sinal identificador de veículo automotor, inserção de dados falsos em sistema de informações, peculato, concussão, corrupção passiva, corrupção ativa, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

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