Um medicamento administrado há cerca de 70 anos para controlar a pré-eclâmpsia, a hipertensão que surge durante a gravidez, pode ter um novo e promissor uso na medicina. Pesquisadores descobriram que a hidralazina, tradicional vasodilatador utilizado por gestantes, pode atuar contra o glioblastoma, um dos tipos mais agressivos de câncer no cérebro.
A descoberta foi publicada em 15 de outubro na revista científica Science Advances. Embora a hidralazina tenha sido por décadas a primeira opção em muitos tratamentos de pré-eclâmpsia, seu mecanismo de ação exato ainda não era totalmente compreendido.
“A hidralazina foi criada em uma era de descobertas, quando os pesquisadores dependiam do que observavam nos pacientes antes de explicar a biologia por trás do funcionamento das drogas”, afirmou o cientista Kyosuke Shishikura, da Universidade da Pensilvânia, em comunicado divulgado pela instituição.
Como o medicamento funciona
O estudo identificou que a hidralazina bloqueia uma enzima chamada 2-aminoethanethiol dioxygenase (ADO). Essa substância é responsável por enviar um alerta aos vasos sanguíneos para que se contraiam e aumentem a pressão arterial.
“A ADO é como um alarme que dispara no momento em que o oxigênio começa a cair”, explicou Megan Matthews, também autora da pesquisa. Segundo ela, enquanto muitos sistemas do corpo precisam de tempo para ativar processos complexos, a ADO executa sua função em questão de segundos, acionando um “interruptor bioquímico”. Ao bloquear essa enzima, a hidralazina impede o funcionamento do sensor, o que reduz o cálcio nos vasos e provoca relaxamento vascular, ajudando a controlar aumentos de pressão, fundamental para gestantes com pré-eclâmpsia.
Potencial contra o glioblastoma
Em pesquisas mais recentes, níveis elevados da ADO têm sido associados ao glioblastoma, câncer altamente agressivo que prospera em regiões de baixo oxigênio no cérebro. Diante dessa ligação, cientistas da Universidade da Pensilvânia, em parceria com a Universidade da Flórida, decidiram testar os efeitos da hidralazina sobre o tumor.
Utilizando técnicas de imagem de alta resolução, eles descobriram que o medicamento foi capaz de pausar o crescimento do glioblastoma, sem aumentar inflamações ou provocar resistência tumoral, dois dos maiores desafios no tratamento desse tipo de câncer.
Izabella Furtado
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