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Colunista Caroline Vitorino
Análise política
GP1

Rafael Fonteles, o vice e o silêncio que grita dentro do PT

Entre a preferência por Bandeira e as pressões do MDB, o nome de Severo Eulálio surge como alternativa.

Há quem diga que o tema da vice-governadoria é um assunto saturado, desses que o próprio governador Rafael Fonteles (PT) insiste em adiar para 2026. Mas, o silêncio costuma ser o primeiro sinal de movimento. Nos bastidores do Palácio de Karnak, as peças já se movem com precisão cirúrgica e com resistências nada desprezíveis.

O nome preferido de Fonteles é o do secretário Washington Bandeira (PT). O governador enxerga nele o perfil ideal: lealdade, juventude e sintonia política. Contudo, uma andorinha só não faz verão e a escolha, longe de ser pacífica, enfrenta resistências de peso dentro do próprio PT.

Foto: Divulgação/AscomRafael Fonteles e Washington Bandeira
Rafael Fonteles e Washington Bandeira

O principal contraponto vem do senador e ministro Wellington Dias, figura que ainda exerce forte influência sobre a engrenagem petista no Estado. Fontes ligadas ao ministro e ouvidas pela colunista afirmam que ele não está plenamente satisfeito com a escolha. Wellington vê com reservas o que chama de “hegemonia dos Rafa Boys”, o grupo mais próximo do governador, formado por aliados de confiança pessoal e pouca trajetória partidária anterior.

O MDB entra em cena

Enquanto o PT tenta aparar arestas internas, o MDB observa a movimentação com atenção redobrada. O partido, que desde 2022 mantém um acordo para ceder a vaga de vice ao PT, agora ensaia uma reviravolta.

O combinado era simples: o PT indicaria o vice de Fonteles e o MDB ficaria com espaço na chapa majoritária. Mas, na prática, o tabuleiro mudou. Segundo apuração desta coluna, Fonteles chegou a cancelar um evento em que anunciaria Bandeira como vice, um gesto interpretado como sinal de que há “fumaça no ar”.

Fontes próximas ao governador afirmam que, diante das “ameaças veladas” do MDB, Fonteles teria aberto a possibilidade de discutir outros nomes, não por convicção, mas por prudência.

E foi nesse ponto que surgiu, discretamente, o nome do presidente da Assembleia Legislativa do Piauí (Alepi), Severo Eulálio (MDB). Ele reúne duas virtudes políticas raras: mantém boa relação com Wellington Dias e trânsito respeitável entre governistas e emedebistas.

Foto: Lucas Dias/GP1Severo Eulálio e Rafael Fonteles
Severo Eulálio e Rafael Fonteles

Ainda assim, a possibilidade de Severo assumir a vice é vista como remota. Como confidenciou um interlocutor: “Geraria cálculos demais para Fonteles”. Em outras palavras, seria preciso redesenhar toda a engenharia de poder que sustenta o governo e isso custa caro em tempo e aliados.

A dança dos espaços

Por trás dessa disputa, há uma negociação de bastidores que ultrapassa nomes e preferências. O MDB não quer apenas uma vaga na chapa; quer influência real. Segundo apurado, o partido aceita abrir mão da vice caso receba compensações políticas: uma secretaria de peso no governo ou até uma vaga em um Tribunal de Contas.

Nesse cenário, o PT manteria o governo, indicaria o candidato ao Senado e asseguraria espaço para os aliados mais próximos de Fonteles. Já o MDB garantiria participação efetiva na chapa majoritária e no núcleo do poder.

A equação é delicada. Se o MDB conquistar a vice e uma vaga no Senado (mantendo Marcelo Castro), o PT ficaria restrito ao governo e a uma única cadeira senatorial um arranjo que exigiria habilidade e concessões incomuns até mesmo para o padrão petista piauiense.

O cálculo de Fonteles

A decisão final sobre o vice será menos uma questão de afinidade pessoal e mais uma medida de equilíbrio político. Fonteles sabe que indicar Washington Bandeira significa fortalecer o núcleo duro do seu governo mas, ao mesmo tempo, pode ampliar o desconforto de Wellington Dias e acirrar o humor do MDB.

Por outro lado, ceder demais aos aliados pode fragilizar a autoridade do governador, ainda em processo de afirmação como liderança autônoma dentro do PT. Fonteles tenta se equilibrar entre a "gratidão" ao mentor e a necessidade de construir sua própria base de poder.

No fundo, o que está em disputa não é apenas quem será vice, mas quem dominará a engrenagem política do Piauí nos próximos dez anos: o grupo de Fonteles ou o legado de Wellington Dias.

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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