Silvio Santos dizia que a forma é mais importante que o conteúdo. Durante muito tempo, essa frase foi interpretada como uma defesa da superficialidade. Na prática, é exatamente o contrário. É uma defesa da comunicação que funciona.
Ao longo dos anos, observando televisão, jornalismo e política, percebi que ideias excelentes morrem todos os dias não por serem erradas, mas por serem mal apresentadas. Já vi propostas consistentes serem ignoradas em entrevistas porque quem falava não conseguia organizar o raciocínio, não sabia olhar para a câmera ou falava apenas para si mesmo.
Há um causo clássico da televisão que explica isso com clareza. Silvio interrompia programas que tinham bom conteúdo, mas baixa audiência, e fazia uma pergunta simples. Isso está interessante para quem está em casa. Se a resposta fosse não, o programa mudava. Não porque a ideia fosse ruim, mas porque a forma não conversava com o público.
Na política, a cena se repete o tempo todo. Discursos tecnicamente corretos, cheios de argumentos e dados, não mobilizam ninguém. Enquanto isso, quem sabe contar uma história simples, usar exemplos do cotidiano e falar a língua das pessoas vence o debate no imaginário popular. A forma cria conexão antes mesmo da razão entrar em cena.
A forma é a ponte entre a ideia e quem a recebe. Sem ela, o conteúdo não atravessa. Silvio entendia que as pessoas decidem primeiro pelo impacto, pela clareza e pela identificação. Só depois vêm os detalhes. Comunicar não é despejar informação, é conduzir atenção.
Na publicidade, isso é regra. Um produto pode ser excelente, mas se não souber se apresentar, não vende. No jornalismo, uma pauta relevante pode ser ignorada se não tiver narrativa. Na política, uma boa proposta pode morrer se não souber se explicar.
Silvio não desprezava o conteúdo. Ele o protegia. Garantia que a mensagem chegasse às pessoas. A forma não é maquiagem. É estratégia. É respeito com quem escuta.
Por isso essa lição continua atual. Quem ignora a forma fala sozinho. Quem domina a forma amplia o alcance da sua mensagem e transforma ideias em movimento.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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