Acompanho a política de Pernambuco há alguns anos e, mais do que observar o noticiário tradicional, passei a prestar atenção no que acontece nas redes sociais. É ali que se desenrola hoje boa parte da disputa política — e ninguém exemplifica isso melhor do que a governadora Raquel Lyra e o prefeito do Recife, João Campos.
São dois estilos opostos de comunicação digital. João Campos, jovem, dinâmico, herdeiro político de Eduardo Campos, sempre apostou em uma rede social descontraída e pessoal. Vídeos dele dançando, jogando bola, fazendo piadas, posando ao lado de Lula — tudo isso marcou sua estratégia desde o começo do mandato. Chegou a alcançar mais de 160 mil curtidas em um único post.
Mas, de uns meses para cá, eu mesmo notei — e os números confirmam — que essa fórmula começou a desgastar. Entre janeiro e maio deste ano, João perdeu 1,6% dos seguidores no Instagram e viu seu engajamento despencar 55%. Na prática, ele continua grande: quase 3 milhões de seguidores. Mas ser grande sem engajar é, politicamente, quase como falar para uma sala vazia.
Do outro lado, Raquel Lyra segue por um caminho diferente. Se João vende simpatia, ela vende resultado. A comunicação dela é focada em obras públicas, ações de governo, prestação de contas. É menos carisma fácil e mais conteúdo técnico — mas não de forma fria ou distante. A governadora parece ter encontrado um equilíbrio: não posta dancinha, mas também não transforma o perfil em um mural sem vida.
E aí está o detalhe que me chamou a atenção: enquanto João perdia fôlego, Raquel crescia. Entre janeiro e maio, ela aumentou em 3,5% o número de seguidores e viu suas curtidas médias subirem 17%. Hoje, são cerca de 1,1 milhão de seguidores — menos do que João, sim, mas com uma base mais fiel e engajada.
Especialistas com quem conversei atribuem esse desempenho ao foco claro. Raquel quase não mistura vida pessoal e governo. Ela consolidou sua imagem de autoridade pública, especialmente entre mulheres de 25 a 34 anos, um público estratégico e formador de opinião.
O contraste entre os dois não é só uma questão de estilo. É uma questão de propósito. João Campos construiu sua comunicação com apelo emocional e proximidade pessoal, mas isso exige constante renovação. Repetir a mesma fórmula cansa. E João, hoje, parece preso nesse roteiro.
Raquel, por outro lado, aposta na constância, numa comunicação mais técnica, com foco em dados, programas sociais, obras. É menos espetáculo, mas talvez mais sustentável politicamente.
Na prática, Pernambuco vive hoje dois laboratórios digitais paralelos: de um lado, o político que precisa se reinventar para não perder relevância; do outro, a governadora que, sem muita gritaria, vai ganhando terreno com passos discretos, porém consistentes.
Quem vai ganhar essa disputa no longo prazo? Difícil cravar agora. Mas uma coisa já é certa: rede social em política não é só número de seguidor. É, sobretudo, qualidade de conversa com as pessoas. Não basta aparecer. É preciso fazer sentido..
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário, escritor e palestrante, abordando atualmente o tema: “Narciso, a cultura do espelho”, título de seu novo livro, com lançamento previsto para outubro de 2025. Possui MBA em Gestão, Empreendedorismo e Marketing; pós-graduação em Gestão, Governança e Setor Público; pós-graduação em Novas Tecnologias, Transformação Digital e Agilidade; pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia; e pós-graduação em Comunicação Eleitoral e Marketing Político.
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