Eu costumo olhar o Carnaval como algo muito além do entretenimento. Para mim, ele funciona como um laboratório social onde símbolos são testados em tempo real, narrativas são expostas e lideranças passam por um julgamento imediato. Foi com esse olhar que acompanhei duas homenagens recentes que produziram efeitos completamente diferentes: a consagração de Mestre Ciça e a associação simbólica do Carnaval ao governo de Lula.
Do ponto de vista do marketing político, o contraste é didático.
A homenagem a Mestre Ciça, dentro do desfile da Acadêmicos do Salgueiro, funcionou porque havia coerência entre personagem, narrativa e entrega técnica. Nada ali foi improviso. Houve comando, ensaio, disciplina e execução. A bateria respondeu, o público reagiu e os jurados confirmaram. Em linguagem de marketing, a promessa encontrou a experiência. Quando isso acontece, a reputação se consolida. O título veio como consequência natural de um trabalho visível, mensurável e reconhecido.
No Carnaval, não existe atalho. Não adianta discurso bonito se a harmonia falha. Não há marketing que salve quando o ritmo não encaixa. A nota reflete a performance. Simples assim.
Já na política, a tentativa de transformar o Carnaval em ativo simbólico para Lula seguiu outro caminho. Aqui, o problema não foi estético. Foi estratégico. Em vez de gerar identificação ampla, a homenagem produziu ruído. Em vez de fortalecer imagem, expôs a distância entre a narrativa oficial e a percepção cotidiana da população. Para muita gente, soou deslocada diante de um cenário marcado por insegurança nas ruas, promessas recicladas e baixa expectativa de entrega.
No marketing político, isso tem nome: desconexão entre discurso e realidade. Quando essa ruptura acontece, o símbolo deixa de agregar valor e passa a consumir capital político. Não há jurado formal como no samba, mas existe julgamento popular, e ele é silencioso, contínuo e implacável.
A comparação é inevitável. Mestre Ciça foi homenageado e saiu campeão porque apresentou resultado concreto. Lula foi celebrado simbolicamente, mas acabou desclassificado na percepção pública. No samba, quem não entrega perde ponto. Na política, quem não entrega perde confiança. É um tipo diferente de rebaixamento, menos barulhento, porém muito mais profundo.
Minha leitura é simples. Homenagem só funciona quando reforça uma verdade já percebida. Quando tenta substituir resultado por encenação, o efeito se inverte. Uma virou troféu. A outra virou desgaste.
E talvez essa seja a principal lição que o Carnaval oferece à política brasileira: liderança não se constrói com alegoria. Se constrói com método, entrega e respeito à inteligência do público.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
E-mail: [email protected]
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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