Fechar
Colunista José Trabulo Júnior
José Trabulo Júnior.
GP1

Política pune a arrogância e premia a simpatia

Arrogância na política é uma armadilha disfarçada de poder. Ela cria uma falsa sensação de superioridade.

Eu morei em Brasília. Vivi de perto os bastidores, os corredores silenciosos e também os palcos onde tudo parece grandioso. E foi lá que eu entendi, de forma muito clara, uma verdade que muita gente ainda demora a perceber: a política pune a arrogância e premia a simpatia.

Em Brasília, você vê de tudo. Gente que chega achando que o cargo é um trono, que o mandato é uma blindagem, que o poder é permanente. Falam difícil, andam cercados, evitam o contato direto, tratam as pessoas como degraus. No começo, até impressionam. Mas com o tempo, vão ficando sozinhos. Perdem espaço, perdem respeito e, quando mais precisam de apoio, ele simplesmente não vem.

Também vi o oposto.

Vi lideranças que sabiam o nome de quem servia o café, que paravam para ouvir um assessor, que conversavam com quem pensava diferente sem levantar a voz. Gente que entendia que política não é sobre parecer grande, mas sobre fazer o outro se sentir importante. Esses, mesmo quando erravam, eram compreendidos. Mesmo quando enfrentavam dificuldades, não estavam sozinhos. Porque construíram algo que cargo nenhum compra: relação verdadeira.

Um exemplo muito claro disso foi o que vi acontecer com dois perfis bem diferentes dentro do mesmo ambiente político. Um deles tinha um cargo relevante, era tecnicamente preparado, mas tratava mal quem estava ao redor. Não cumprimentava, não ouvia, não tinha paciência. Em pouco tempo, começou a ser isolado. As portas se fecharam, os convites diminuíram e sua influência, que parecia tão forte, desapareceu quase sem aviso.

Ao mesmo tempo, outro político, com menos visibilidade inicial, fazia questão de ouvir todos, de respeitar cada pessoa, de construir pontes. Com o tempo, passou a ser lembrado, procurado e respeitado. Quando precisou de apoio, ele veio naturalmente. Não por obrigação, mas por reconhecimento.

A arrogância, na política, é uma armadilha disfarçada de poder. Ela cria uma falsa sensação de superioridade, mas corrói por dentro. Afasta aliados, fecha portas e transforma qualquer crítica em ameaça. É um caminho curto e, quase sempre, solitário.

Já a simpatia, a verdadeira, não a encenada, é uma força silenciosa. Ela abre caminhos, aproxima pessoas e sustenta lideranças nos momentos difíceis. Não é sobre agradar todo mundo, mas sobre respeitar todo mundo. É sobre saber ouvir antes de responder, entender antes de julgar.

Em Brasília, aprendi que ninguém se mantém relevante apenas pelo cargo. O que sustenta alguém na política é o vínculo com as pessoas. E esse vínculo não nasce da arrogância. Nasce da humildade, do respeito e da capacidade de se conectar.

No fim, a política funciona como um espelho. Ela revela quem você é de verdade. E pode até demorar um pouco, mas sempre cobra. Cobra de quem se afastou demais do povo e reconhece quem nunca deixou de caminhar ao lado dele.

José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.

E-mail: [email protected]

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

Mais conteúdo sobre:

Ver todos os comentários   | 0 |

Facebook
 
© 2007-2026 GP1 - Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do GP1.