Sempre fui muito observador da política, desde a época em que frequentava a redação do jornal O Dia. Ali, acompanhando de perto as notícias, os bastidores e as narrativas que se construíam diariamente, comecei a perceber que a política vai muito além do que aparece nos discursos oficiais. Existe um jogo de forças, interesses e versões que molda a forma como a sociedade entende o poder.
Com o tempo, fui buscando entender melhor essas dinâmicas. E foi nesse caminho que encontrei, nas ideias de Voltaire, um filósofo de séculos atrás, reflexões que continuam extremamente atuais.
Voltaire entendia algo que ainda hoje muita gente prefere ignorar: quando o poder se concentra demais, ele se afasta da realidade das pessoas. E quando se afasta, deixa de cumprir seu papel. Ele criticava duramente esse distanciamento, assim como combatia qualquer forma de autoridade que não pudesse ser questionada.
Uma das ideias mais fortes que ele defendia era a liberdade de expressão. Não como um conceito abstrato, mas como um princípio essencial para qualquer sociedade que queira evoluir. Ele defendia, em essência, o direito de cada pessoa se expressar, inclusive quando há discordância. Isso não é confortável, mas é necessário.
Hoje, o que eu vejo é um ambiente em que muitas pessoas têm medo de falar. Medo de serem julgadas, rotuladas ou até silenciadas. E isso não surge do nada. Existe uma pressão constante que tenta limitar o debate, muitas vezes sob o argumento de controle ou proteção. Mas a verdade é simples: sem liberdade de expressão, não existe debate. E sem debate, não existe solução.
Voltaire também fazia críticas duras ao fanatismo. Para ele, o fanatismo era uma das maiores ameaças à convivência em sociedade. Ele alertava que aqueles que fazem você acreditar em absurdos podem levar você a cometer injustiças. Essa reflexão encaixa perfeitamente no momento que vivemos.
O Brasil atravessa uma fase em que a política, em muitos casos, deixou de ser racional para se tornar emocional. As pessoas passaram a reagir antes de pensar. A política virou disputa de lados, como se fosse uma torcida. E quando isso acontece, o foco deixa de ser o que funciona e passa a ser quem está falando.
Eu não acredito nesse modelo. Não acredito em política baseada em grito ou em imposição. Acredito em política baseada em resultado. Em soluções práticas, que façam diferença na vida de quem está lá na ponta. Não me interessa se uma ideia vem de um lado ou de outro. Se funciona, deve ser considerada. Se não funciona, precisa ser revista.
Outro ponto central no pensamento de Voltaire é a crítica ao poder que não presta contas. Aquele que decide de cima para baixo, sem ouvir quem vive a realidade todos os dias. Esse tipo de estrutura tende a se proteger, a se fechar e a se manter distante. E quando isso acontece, o povo deixa de ser prioridade.
Voltaire dizia que é perigoso estar certo quando o governo está errado. E talvez essa seja uma das frases que melhor descreve o momento atual. Porque muitas vezes, quem questiona acaba sendo visto como problema, quando na verdade está tentando ser parte da solução.
Voltaire também lembrava que o preço da liberdade é a vigilância constante. Nenhum direito se sustenta sozinho. Quando a sociedade se acomoda, o poder avança. Quando o cidadão se cala, alguém decide por ele. E quando ninguém questiona, os erros se repetem.
O Brasil não precisa de mais discursos prontos. Precisa de mais clareza, mais responsabilidade e, principalmente, mais coragem. Coragem para questionar o que está errado, para enfrentar estruturas que não funcionam e para propor caminhos diferentes.
Eu não estou aqui para repetir o que já foi dito tantas vezes. Estou aqui porque acredito que a política pode e deve ser diferente. Que é possível defender a liberdade sem abrir mão da responsabilidade. Que é possível ter firmeza sem cair no extremismo. E que é possível representar sem se afastar da realidade.
No fim, política não deveria ser sobre controle, nem sobre imposição. Deveria ser sobre ouvir, pensar e agir. E, acima de tudo, sobre nunca perder de vista quem realmente importa.
José Trabulo Júnior é consultor de marketing político, jornalista, cientista político, publicitário.
Instagram: @trabulojr
*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1
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