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Colunista Marcelle Furtado
Fisioterapeuta. Sua coluna tem foco na “Saúde em Movimento” e aborda cuidados, prevenção e bem-estar físico.
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Alzheimer, o cérebro e como a fisioterapia ajuda a manter a independência

Alzheimer é a causa mais comum de demência, correspondendo a 60–70% dos casos.

1. "Cadê a chave?" vs. "Para que serve a chave?"

Todo mundo já esqueceu onde colocou as chaves ou o nome de um colega de trabalho. Esses lapsos pontuais fazem parte da vida. Porém, quando o esquecimento se torna frequente, interfere nas atividades cotidianas e vem acompanhado de confusão mental, desorientação no tempo e no espaço, dificuldade de atenção e mudanças de comportamento, é fundamental buscar avaliação médica especializada, e não normalizar o que pode ser sinal de doença.

Alzheimer é a causa mais comum de demência, correspondendo a 60–70% dos casos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2023), mais de 55 milhões de pessoas vivem com demência no mundo, número que pode triplicar até 2050. No Brasil, estima-se que mais de 1,7 milhão de pessoas já convivem com a doença, a maioria inda sem diagnóstico (ABRAZ, 2023).

"O Alzheimer não é parte do envelhecimento. É uma doença, e precisa ser reconhecida, investigada e tratada.

O Fevereiro Roxo é o mês dedicado à conscientização sobre doenças crônicas e sem cura, como o Alzheimer. Esta data nos convida a romper o silêncio sobre o tema e a promover o acesso precoce ao diagnóstico e ao tratamento multiprofissional.

2. O que acontece no cérebro?

Imagine que o cérebro é uma rede elétrica. No Alzheimer, "sujeiras" de proteínas (chamadas beta-amiloide e tau) começam a entupir os fios e desligar as lâmpadas. Isso causa inflamação e a morte dos neurônios, afetando progressivamente a memória, o raciocínio, a linguagem, o comportamento e a autonomia do indivíduo.

A doença geralmente segue um caminho:

● Fase pré-clínica: alterações cerebrais já existem, mas sem sintomas visíveis;

Fase Leve: esquecimentos frequentes, dificuldade de aprender novas informações, ou seja, esquecer o que acabou de ler ou aprender.

Fase Moderada: Confusão com datas, rostos conhecidos e mudanças de humor e comportamento.

Fase Grave: Perda da fala e dependência total para comer ou se vestir.

O diagnóstico precoce, nas fases inicial ou moderada, é essencial para que as intervenções tenham maior impacto na preservação da funcionalidade e na qualidade de vida.

3. 10 Sinais de alerta (Fique de olho!)

A Alzheimer's Association lista 10 sinais que diferem do envelhecimento normal. Qualquer um deles é motivo para procurar um médico neurologista ou geriatra:

1. Perder a memória a ponto de não conseguir trabalhar ou cuidar da casa.

2. Dificuldade em seguir uma receita ou resolver problemas simples.

3. Se perder em caminhos que faz todo dia.

4. Confundir o dia da semana ou o mês.

5. Dificuldade em entender distâncias ou cores.

6. Trocar palavras ou repetir a mesma frase várias vezes.

7. Guardar objetos em lugares estranhos (chaves dentro da geladeira, por exemplo).

8. Perder o "filtro" ou tomar decisões ruins.

9. Desistir de hobbies e se isolar dos amigos. 10. Ficar muito ansioso, triste ou irritado sem motivo aparente.

4. O "Remédio" que vem do movimento

Antigamente, achavam que neurônio morto não se recuperava. Hoje, a neurociência prova que o cérebro é plástico: ele se adapta! O exercício físico é um dos maiores aliados nessa batalha.

Estudos mostram que se movimentar ajuda a:

Aumentar o Hipocampo: Mesmo em pacientes idosos com comprometimento cognitivo leve a "caixa de memória" do cérebro pode crescer com exercícios;

Produzir "Adubo Cerebral": O exercício libera uma proteína chamada BDNF, que ajuda os neurônios a sobreviverem;

Limpar o cérebro: Ajuda a reduzir aquela "sujeira" (proteína beta-amiloide) que causa a doença.

"O exercício físico orientado é, hoje, uma das intervenções não farmacológicas com maior nível de evidência para retardar o declínio cognitivo em pessoas com Alzheimer." (Lam et al., 2018)

5. Como a Fisioterapia ajuda na prática?

A fisioterapia não cura o Alzheimer, nenhuma intervenção ainda o faz. Mas a ciência mostra que ela pode fazer uma diferença profunda na trajetória da doença e no cotidiano do paciente e de quem cuida dele.

Evita quedas: O paciente com Alzheimer cai mais porque perde o equilíbrio e a noção de espaço. O treino de força e equilíbrio reduz esse risco em 30% (Sherrington et al., 2019).

Exercício para o corpo e a mente: Na fisioterapia, fazemos o "treino motor-cognitivo". É colocar o paciente para caminhar enquanto ele precisa citar nomes de frutas, por exemplo. Isso turbina a atenção.

Independência: O foco é manter o paciente conseguindo tomar banho e se vestir sozinho pelo maior tempo possível.

Melhora o humor e o sono: O exercício reduz a agitação e a agressividade, trazendo paz para o paciente e para quem cuida.

6. O que fazer agora? (Dicas de Ouro)

Se você tem um familiar com o diagnóstico de Alzheimer leve a moderado, as principais diretrizes internacionais (WHO, 2019; Alzheimer's Association, 2024) recomendam:

● 150 minutos semanais de atividade física aeróbica de intensidade moderada (caminhada, hidroginástica, ciclismo adaptado);

● Exercícios de resistência muscular (musculação adaptada) 2 vezes por semana;

● Treinamento de equilíbrio e marcha para prevenção de quedas;

● Exercícios cognitivo-motores (dança, circuitos com desafios de memória);

● Acompanhamento por equipe multiprofissional: neurologista, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo e nutricionista.

Todo programa de exercícios deve ser individualmente prescrito e supervisionado por um fisioterapeuta, respeitando as limitações, o estado cognitivo e as comorbidades de cada paciente.

7. Alzheimer: um problema de todos

média 3 cuidadores familiares, que frequentemente abandonam empregos, comprometem sua própria saúde e vivem um luto antecipado pela pessoa que amam. O custo global com demências supera 1,3 trilhão de dólares por ano (Alzheimer's Disease International, 2023).

Reconhecer os sinais precoces, buscar diagnóstico e iniciar tratamento multiprofissional são atos que transformam trajetórias. A fisioterapia não devolve o que a doença levou, mas preserva, por mais tempo, aquilo que ainda existe. E isso tem um valor imensurável.

"Se não há cura, que haja conforto, acolhimento e qualidade de vida." — Marcelle Furtado

A Doença de Alzheimer é uma realidade crescente e urgente no Brasil e no mundo. Os esquecimentos, a confusão mental e a desorientação não devem ser normalizados como parte do envelhecimento, eles são sinais de alerta que merecem atenção médica especializada e intervenção multiprofissional precoce.

A neurociência é clara: o cérebro responde ao movimento. O exercício físico orientado e a fisioterapia representam, hoje, intervenções com robusta base científica para preservar a funcionalidade, retardar a progressão dos sintomas, melhorar a qualidade de vida e reduzir a sobrecarga sobre as famílias.

Este Fevereiro Roxo é um convite à conscientização, e à ação.

Gostou dessa leitura? Compartilhe com quem cuida de alguém com Alzheimer. O conhecimento é a melhor ferramenta de cuidado!

*** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do GP1

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